O Blog convidou Marina Fiuza, doutora em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, Gerente Editorial Via Lúdica, para conversar sobre o livro infantil e sua importância na formação de leitores.
Como “ninguém nasce sendo um leitor”, o Blog convidou a doutora em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, Marina Fiuza, gerente editorial da Via Lúdica, para conversar sobre o livro infantil e sua importância na formação de leitores.
As comemorações do Dia Internacional do Livro Infantil marcam o início do mês de abril (dia 2) com pompa e circunstância. A data incentiva a conscientização da importância desse gênero literário para a formação de novos leitores.
No Brasil, o dia 18 de abril também se dedica ao tema porque nessa data, em 1882, nascia o escritor Monteiro Lobato, considerado o pioneiro e pai da literatura infantil brasileira.
Como “ninguém nasce sendo um leitor”, o Blog convidou a doutora em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, Marina Fiuza, gerente editorial da Via Lúdica, para conversar sobre o livro infantil e sua importância na formação de leitores. Em seu currículo consta uma pós-graduação em Neurociências e Psicologia Aplicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2023).
Marina Fiuza e um dos livros da Editora Via Lúdica
1 – Por que comemorar o Dia do Livro Infantil?
Ter uma data comemorativa para o livro infantil é uma maneira de valorizar a produção nacional, celebrar sua história e incentivar novas gerações de leitores e autores.
2 – Existem duas datas específicas?
No plano internacional, o livro infantil é celebrado no dia 2 de abril em homenagem a Hans Christian Andersen, nascido na Dinamarca nesse dia, no ano de 1805. Embora os contos de fadas encontrem suas origens na tradição oral, o autor dinamarquês destacou-se pelo registro e edição de centenas desses contos, histórias que foram amplamente difundidas pelos quatro cantos do mundo e que continuam presentes nas infâncias de hoje, como é o caso de O patinho feio e A pequena sereia, para citar apenas dois títulos.
3 – E no Brasil, qual é a data?
Aqui no Brasil, o livro infantil é celebrado logo adiante, no dia 18 de abril, aniversário de Monteiro Lobato, nascido no ano de 1882. Embora Lobato tenha se tornado uma figura controversa devido ao teor racista presente em suas obras, a contribuição do autor na história da literatura infantil nacional é inegável.
Marina Fiuza e uma estante de livros
4 – Em que áreas Monteiro Lobato se destaca?
Além da famosa coleção Sítio do Picapau Amarelo, Lobato se destaca por sua importante atuação no mercado editorial brasileiro, despontando em uma época em que os livros que circulavam por aqui eram editados majoritariamente na Europa.
5 – Lobato e Andersen são marcos na história editorial?
A partir dessas duas figuras emblemáticas – Lobato e Andersen –, desenvolveu-se um campo rico de produção literária que encanta crianças e adultos. Além das histórias, há as ilustrações e os projetos gráficos, que, juntos, fazem do livro infantil um profícuo campo de experimentação guiado pela imaginação própria da infância.
Enfim, conhecer um pouco dessa história é uma boa maneira de celebrar o Dia Nacional do Livro Infantil. Conhecer o livro de ontem e de hoje é o primeiro passo para se pensar no livro do amanhã, mantendo a expressão literária sempre viva e latente.
Equipe editorial da Via Lúdica
6 – Como a criança enxerga a leitura?
O processo de aquisição da linguagem formal é das coisas que mais me encantam. Por meio do domínio de uma língua é que vamos conseguindo dar conta do mundo ao nosso redor e, também, de nós mesmos.
Testemunhar uma criança em processo de alfabetização é de uma beleza sem fim, porque percebemos todo um universo sendo revelado junto com as palavras que se aprende a ler e a escrever.
7 – Quando o processo de aquisição realmente começa?
Acredito que a leitura da criança começa muito antes da alfabetização. Quem convive com crianças já deve ter visto algumas delas folheando as páginas de um livro com atenção, ainda que fossem incapazes de decifrar os sinais gráficos ali impressos. Ou então pode ter visto uma criança inventar uma história a partir de ilustrações, ou ainda inventar um próprio idioma, forjando a leitura em voz alta.
O livro que a criança segura é como um objeto mágico no qual se revela uma infinidade de histórias possíveis. Virar páginas, observar palavras e imagens já é, acredito eu, uma forma de leitura. Não apenas uma preparação para a leitura, mas uma leitura de fato, capaz de produzir experiências de sentido.
8 – Ter livros nas mãos das crianças é importante?
Sem dúvida. Não só importante, mas é fundamental que as crianças tenham sempre livros ao alcance das mãos para acessá-los, sem pudores, desde a primeiríssima infância. Além disso, é importante que a criança conviva com leitores experientes, que as introduzam no universo literário, mesmo que seja apenas pela observação do exemplo.
9 – Você teria alguma experiência pessoal?
Na minha experiência pessoal, antes de aprender a ler, fazia companhia para minha mãe nos seus momentos de leitura. Eu escolhia um livro e me sentava ao lado dela, observando e mimetizando seus gestos leitores: o virar de página, o tempo necessário para a leitura de cada trecho, o posicionamento do marcador de páginas… tudo fazia parte de uma “coreografia de leitura” que, certamente, influenciou meu gosto pelo livro.
Equipe editorial da Via Lúdica
10 – A palavra “experiência” é forte para a criança que lê?
É uma palavra maravilhosa. No campo da literatura, ler é a própria experiência. Quando lemos uma receita de bolo ou um manual de instruções, por exemplo, não há uma experiência. Há apenas a decodificação de uma língua para a obtenção de uma informação (não que esses processos neuronais não sejam incríveis também).
Quando se lê um poema ou um conto fantástico, porém, o objetivo da leitura não é a mera obtenção de uma informação. Pouco importa saber resumir o enredo de uma história porque toda a graça está no próprio processo de leitura; ou, melhor dizendo, na própria experiência da leitura.
11 – Que impactos positivos o texto literário produz na mente?
O texto literário convoca a imaginação do leitor, desperta sensações, aciona repertórios… de maneira que uma leitura nunca é igual a outra. Um grande amigo meu costuma dizer que não há spoilers quando o assunto é livro, e quem pensa o contrário não entendeu o que é a literatura. Saber como termina uma história não substitui a experiência de lê-la.
Se no caso da receita de bolo desejamos sempre o mesmo resultado, sem margem para interpretações ou variações de qualquer natureza, no caso da literatura a leitura é sempre uma experiência aberta e significante.
Livro da Via Lúdica
12 – Que novidades tem a Via Lúdica para celebrar a data?
Estou muito feliz em celebrar o Dia Nacional do Livro Infantil este ano, pois tenho a satisfação de apresentar um catálogo belíssimo de livros inéditos para o público brasileiro. Há mais de dois anos, a talentosa equipe da Via Lúdica vem trabalhando neste catálogo de obras internacionais e nacionais com afinco.
Se nos bastidores da produção editorial já temos – minha equipe e eu – vivido uma experiência de puro encantamento, mal podemos esperar para que os livros alcancem, enfim, seus leitores. Seja para folhear as páginas lindamente ilustradas e inventar suas próprias narrativas, seja para a realização de uma leitura autônoma, os livros da Via Lúdica são garantia da experiência estética, a qual deve ser direito garantido de toda criança.
Jael Eneas, Educador Viver Editora Multiverso das Letras