Depois do abraço

captura de tela 2026 07 27 às 11.04.42
Há momentos que, de tão simbólicos que são, parecem dividir a vida em duas partes, mesmo não sendo acompanhados de discursos ou de grandes cerimônias. Eles simplesmente acontecem e, quando percebemos, para o resto dos nossos dias já não somos exatamente os mesmos. 

 Comigo foi assim. Eu imaginava que o nascimento de um neto seria uma grande alegria. Foi muito mais que isso, pois descobri que havia algo muito maior esperando por mim. Descobri que, naquele dia, não nasceu apenas o Levi. Nasceu também um avô. 

Até aquele momento, eu conhecia muitos dos papéis que a vida havia me oferecido. Filho, irmão, neto, marido, pai, amigo, professor, escritor, palestrante… Cada um deles deixou marcas profundas em quem me tornei. 

Mas ser avô… ninguém consegue explicar antes que aconteça. É como se a vida, depois de nos testar com tantos prazos, metas e responsabilidade, de repente nos oferecesse uma trégua. Passamos a existência inteira acumulando títulos, construindo certezas e blindando o coração contra as intempéries do mundo. Mas o título de avô não se conquista pelo esforço, ele nos é dado como um ato de pura graça. A verdade é que a gente passa anos ensinando o que sabe, para descobrir, em um único segundo, que não sabia nada sobre a forma mais bonita de amar. Ser avô é ver o próprio coração caminhar fora do peito, saltitando pelo tapete da sala, sem medo nenhum de tropeçar. É uma espécie de pós-graduação na ciência da ternura, em que o diploma é um sorriso banguela e a tese de doutorado é aprender a rir de novo das coisas mais simples da terra. 

whatsapp image 2026 08 06 at 15.15.07
Antonio Braga e o seu neto

O peso das histórias e a leveza do recomeço 

A primeira vez que tomei o Levi nos meus braços, senti algo que ainda hoje encontro dificuldade para traduzir em palavras. Era um bebê de poucos quilos. Eu, um homem trazendo décadas de histórias, alegrias, perdas, conquistas, erros, aprendizados e recomeços. E, naquele instante, duas histórias se encontraram. Eu segurava um menino e, sem saber, ele segurava toda a minha vida. 

Talvez seja por isso que aquele abraço tenha mudado tanto a minha maneira de olhar para o tempo. Quando somos mais jovens, quase sempre olhamos para a frente. Estamos construindo carreira, família, projetos. Vivemos impulsionados pelo que ainda queremos alcançar. A chegada de um neto produz um movimento diferente, que não diminui nossos sonhos, mas reorganiza nossas prioridades. 

De repente, consolidamos o entendimento de que a vida não é feita apenas das coisas que realizamos, mas das pessoas que ajudamos a florescer, e há uma espécie de bela serenidade nessa descoberta. 

A urgência de preparar vs A alegria de apenas estar 

Como pai, muitas vezes me vi preocupado em preparar meus filhos para a vida. Como avô, descubro a alegria de simplesmente estar presente. 

Por breve que seja o tempo, sentar no chão com ele é fazer o relógio esquecer de rodar. Dou mil risadas com os seus ensaios de passos, o soar das primeiras palavras e o espanto maroto dos seus olhos descobrindo o mundo. Sou um homem feito, mas viro menino ao celebrar cada pequena conquista dele como se fosse a maior descoberta da mundo. 

E o mais bonito é que a gente ri de novo, e de novo, e de novo da mesmíssima coisa, porque o amor não tem pressa de novidade 

Talvez seja esse um dos presentes escondidos da experiência de ser avô: ela nos devolve uma capacidade de encantamento que o excesso de compromissos quase havia adormecido, e o curioso é que essa transformação não acontece apenas na relação com o neto, ela acontece dentro de nós. Começamos a perceber que algumas das perguntas que nos acompanharam durante tantos anos vão perdendo importância e já não sentimos tanta necessidade de provar alguma coisa, de vencer discussões nem de ter razão. Bem, passamos a valorizar mais aquilo que permanece do que aquilo que impressiona. 

Talvez seja porque um neto nos lembra, sem dizer uma única palavra, que a vida sempre continuará depois de nós. E essa nunca é uma ideia triste. Ao contrário, ela é profundamente libertadora. Olhando para o Levi, percebo que meu maior desejo não é que ele se lembre de tudo o que eu disse. Gostaria, antes, que ele jamais esquecesse como se sentia quando estávamos juntos. 

Afinal, é assim que o amor costuma permanecer 

Não apenas nas palavras que pronunciamos, mas na atmosfera que criamos ao redor das pessoas que amamos. No final das contas, o que fica não é o que ensinamos, mas como fazemos o outro se sentir quando estamos por perto. É a forma como nos envolvemos por inteiro naquele instante, deixando claro que, naquele pedaço de tempo, não existe outro lugar no mundo onde a gente preferisse estar. Os netos talvez não guardem todas as histórias que contamos, mas guardarão a maneira como eram acolhidos e a segurança de saber que havia um abraço esperando por eles. 

O amor que não precisa controlar 

Hoje compreendo que ser avô não é voltar a ser pai, mas vivenciar um incrível processo de descobrir uma forma diferente de amar, um amor que já não precisa controlar tanto e que já não sente urgência em corrigir tudo. 

Enquanto escrevo estas linhas, penso novamente naquele primeiro abraço, quando segurei o Levi em meus braços, e confesso que, naquele dia, a certeza que mais invadia a minha alma era a de que um upgrade fora dado em minha vida. 

Ali eu entendi, com o Levi em meus braços, que existem vivências que o tempo não consegue apagar e o esquecimento não é capaz de tocar. São essas memórias douradas que carregaremos para a vida toda e que, de alguma forma, também caminharão com ele quando eu já não estiver mais aqui. É o tipo de lembrança que não ocupa espaço na mala, mas preenche todo o espaço do peito. E é justamente essa bagagem invisível que muda tudo. 

Ah! Quando o coração se expande dessa maneira, o próprio tempo ganha um novo marco 

Há uma vida antes daquele abraço e existe a vida que começou depois dele. Neste Dia dos Avós, desejo que muitos tenham o privilégio de experimentar essa transformação silenciosa. 

E, se você ainda não viveu esse momento, permita-me dizer uma coisa: quando ele chegar, talvez você descubra que o maior presente não será o neto que colocarem em seus braços, mas a pessoa que você descobrirá dentro de si. 

Porque alguns abraços não apenas acolhem. 

Eles simplesmente nos reinventam. 

whatsapp image 2026 08 06 at 15.15.06 (2)
Antonio Braga e o seu neto

Antonio Braga Filho é professor e escritor. Autor de Memento Vivere: 50 provocações para uma vida melhor. 

right
Editora Viver: livros religiosos, espirituais e de desenvolvimento pessoal com qualidade, tradição editorial e compromisso com a fé cristã no Brasil.

Relacionados

No data was found

Fique por dentro das novidades

Desenvolvemos projetos para um mundo em constante transformação e escolas ávidas por inovação.

Ao clicar em ”Enviar” você concorda com a Política de Privacidade.

plugins premium WordPress