Quem tem um amigo tem tudo. Tem mesmo?

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No sétimo mês do ano, há duas datas para celebração da amizade no Brasil: 20 e 30 de julho. Descubra as origens das duas datas e por qual motivo elas trazem reflexões importantes para qualquer ser humano.

Existe uma frase repetida há muito tempo que diz: “Quem tem um amigo tem tudo.” Alguns anos atrás, ela virou até título de música, aqui no Brasil. O rapper Emicida escreveu assim, parte da sua poesia: “Quem tem um amigo tem tudo. Se o poço devorar, ele busca no fundo.” 

E a música parece um enorme celeiro para reflexões adicionais sobre esse assunto. O grupo de samba “Fundo de Quintal” tem uma canção que leva exatamente este nome: A Amizade. E este ode sambístico começa dizendo exatamente sobre como dois amigos podem estar intimamente conectados: “Quero chorar o seu choro. Quero sorrir seu sorriso. Valeu por existir, amigo.” 

Talvez por ser tão essencial a existência humana (e daqui a pouco, a gente reflete mais profundamente sobre a profundidade desse “essencial”), nem precisássemos de um dia no calendário para nos relembrar da importância da amizade e de se ter amigos. Se bem que ninguém ignora a importância de datas como o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Dia dos Namorados, o Dia das Crianças ou da Independência do Brasil, ainda que elas não sejam essenciais para lembrar-nos da importância de cada um desses personagens ou da relevância de ser parte de um país livre. 

De qualquer forma, o Dia do Amigo e o Dia da Amizade existem. Eles não são tão famosos quanto os que foram citados anteriormente. E nem geram um corre-corre às lojas para a compra de presentes. Mas eles existem. 

20 de julho 

Em 20 de julho de 1969, ocorreu a famosa descida do homem à Lua, pela primeira vez. Liderada pelos Estados Unidos, essa missão chamou a atenção de pessoas por todo o planeta. Entre elas, um psicólogo, músico e dentista da Argentina: Enrique Ernesto Febbraro. Inspirado por essa conquista, o argentino viu nesse evento uma espécie de conexão entre todos os seres humanos: afinal, a Lua não pertence a ninguém, mas todos os humanos se conectam a ela todos os dias. E quando alguns seres humanos conseguem alcançá-la pela primeira vez na história é como se todos os seres humanos fizessem parte desse feito, também, gerando uma conexão mundial. 

A partir dessa reflexão, Febbraro, que era membro do Rotary Club, a rede global de voluntários, passou a escrever cartas para diferentes autoridades e pessoas que ele considerava relevantes em variadas nações, com a sugestão de celebrar o Dia do Amigo, em 20 de julho. Dez anos depois, a província de Buenos Aires, onde o dentista vivia, declarou essa data como o Dia do Amigo. E em 1983, em toda a Argentina, essa passou a ser a data oficial para se comemorar a amizade. Autoridades de outros países, como o Uruguai, o Chile, a Espanha e o Brasil demonstraram simpatia para com a proposta do argentino, e adotaram em seus calendários oficiais o 20 de julho como o Dia do Amigo, também. 

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30 de julho 

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi fundada em 24 de outubro de 1945, por meio da iniciativa de diferentes países, com o objetivo de evitar que as destruições e tristezas da Segunda Guerra Mundial, que tinha oficialmente terminado havia pouco mais de um mês, em 02 de setembro do mesmo ano, voltassem a se repetir. Com o objetivo de promover a paz e a segurança internacional, diferentes iniciativas foram realizadas, e continuam a ter espaço na ONU. 

E em 03 de maio de 2011 correu uma delas. A Assembleia Geral da ONU estabeleceu a data do dia 30 de julho como sendo o Dia Internacional da Amizade. A data foi sugerida à organização por outro sul-americano, desta vez um paraguaio: Ramón Artemio Bracho. médico, ele havia fundado a Cruzada Mundial da Amizade, em 1958, uma organização com o objetivo de promover a cultura da paz e da amizade entre os povos. Como naquela época ainda não havia uma data para a promoção internacional da amizade, ele decidiu sugerir que sua organização promovesse esse tema, a partir do dia 30 de julho de 1964. A organização paraguaia celebrou a data durante muitos anos, até que conseguiu sugerir que essa data fosse oficialmente adotada pela ONU, quarenta e sete anos depois da primeira celebração, no Paraguai. 

No Brasil, não há uma lei instituindo o dia 30 de julho como o Dia Internacional da Amizade. Porém, a iniciativa da ONU faz com que, em diferentes publicações e meio de comunicação, a data seja lembrada anualmente. 

Outras datas 

Em diferentes lugares do planeta, outras datas também celebram os amigos e a amizade. 01 de agosto, 16 de abril, 09 de junho… Enfim, para cada data diferente, uma explicação diversa, mas com o mesmo objetivo: celebrar a conexão entre as pessoas. 

Inclusive, o dia 14 de fevereiro, o Dia de São Valentim, santo católico que celebra o amor, relembra a data da morte por decapitação desse padre, em 270 d.C., pelo fato de ele celebrar casamentos, mesmo após a proibição dos matrimônios por parte do imperador romano Cláudio II, que acreditava que os jovens se alistariam com mais facilidade no exército se permanecessem solteiros. E apesar de essa data ser muito associada ao amor romântico, principalmente nos países do hemisfério norte, ela é muitas vezes associada ao amor e afeto entre amigos, também. E é comum ver a troca de presentes e cartões celebrando apenas a amizade nesse dia. 

Quem tem um amigo tem tudo mesmo? 

O filósofo grego Aristóteles, em seu texto Política, afirmou: “O ser humano é um animal social.” ele ainda explicou, em seu raciocínio, que a vida em comunidade faz parte da essência humana. 

Talvez nem fossem necessárias pesquisas científicas para percebermos os efeitos positivos de ter bons amigos e boas relações humanas. Mas elas existem, e reforçam esse conceito conhecido popularmente por meio de dados analíticos. 

Apenas para citar uma, em 2007, a psicóloga norte-americana Julianne Holt-Lunstad, da Universidade Brigham Young, publicou um estudo intitulado: “Sobre a Importância de Qualidade nos Relacionamentos: o impacto da ambivalência em amizades no funcionamento cardiovascular.” Apesar do nome da pesquisa ser extenso, e da palavra ambivalência não ser tão conhecida (mas que significa, nesse contexto, existir sentimentos mútuos de amizade entre duas pessoas), a principal conclusão obtida por ela é inspiradora: ter uma boa rede de amigos e vizinhos aumenta em 50 por cento as chances de um ser humano viver mais e melhor. Essa conclusão foi feita pela pesquisadora após a análise de mais de 150 pesquisas sobre o tema, espalhadas pelo mundo, e que analisaram mais de 300 mil pessoas, em quatro continentes. E a conclusão  foi de que seres humanos com conexões sociais positivas (amigos e vizinhos) se saíram melhor em testes de saúde e expectativa de vida em relação aos que não tinham conexões sociais positivas. 

E mais: a mesma pesquisa relacionou, também, que ter poucos amigos pode ser tão prejudicial para o ser humano como fumar 15 cigarros por dia ou ser alcoólatra. Impressionante! 

Em 2008, o jornalista e pesquisador da famosa revista National Geographi, Dan Buettner, publicou um livro que ficou muito conhecido: “Zonas Azuis: A solução para comer e viver como os povos mais saudáveis do planeta.” Basicamente, essa publicação mostrou como é a vida de cinco grupos populacionais de diferentes partes do planeta, onde é normal existirem muitas pessoas vivendo com saúde até os 100 anos de idade, as Zonas Azuis (ou Blue Zones). Entre os nove pontos em comum, apontados pelo autor, que são encontrados nessas comunidades centenárias, duas tem conexão direta com amizades: manter vínculo com familiares e amigos e viver em comunidade. 

As duas situações podem parecer semelhantes. Mas há diferenças entre elas. Se manter vínculos com familiares e amigos é algo simples de entender, viver em comunidade vai para além de viver em um lugar onde habitam outras pessoas. Porque “viver em comunidade”, nesse conceito apresentado pelo autor do livro, significa compartilhar a vida de forma comunitária, no que se relaciona ao cuidado mútuo com as relações sociais, e como elas afetam o dia a dia de toda a população que faz parte daquela comunidade. 

Um exemplo disso apresentado na publicação é o que ocorre em uma das Zonas Azuis pesquisadas, encontrada no Japão, na ilha de Okinawa. Ali, os membros dessa comunidade vivem de acordo com uma norma de amizade mútua chamada “moai”, onde um grupo de cinco amigos se comprometem a cuidar uns dos outros por toda a vida deles. 

Se a palavra vida está diretamente ligada ao ato de se estar vivo… é possível dizer que, realmente, que tem amigos tem tudo na vida. Principalmente quando são amigos que compartilham a existência, nos seus bons e maus momentos, até que a morte os separe e restem apenas as boas memórias de um relacionamento tão profundo e modificador que nem mesmo o fim da existência pode apagar.

 

Autor 

André Henrique Leite. É jornalista, roteirista, apresentador de TV e autor da Editora Via Lúdica. 

Referências 

Aristóteles. Política, Livro 1, Capítulo 2 (parágrafos 1253a2-3). 

BUETTNER, Dan. Zonas Azuis: a solução para comer e viver como os povos mais saudáveis do planeta. São Paulo: nVersos, 2018 

DÍA de la Amistad, un legado del doctor Artemio Bracho para el mundo. La Nación, 30 jul. 2023. Disponível em: https://www.lanacion.com.py/pais/2023/07/30/dia-de-la-amistad-un-legado-del-doctor-artemio-bracho-para-el-mundo/. Acesso em: 14 jul. 2026. 

DÍA del Amigo: por qué se celebra hoy y la historia del argentino que propuso la efeméride. La Nación, 20 jul. 2023. Disponível em: https://www.lanacion.com.ar/lifestyle/dia-del-amigo-por-que-se-celebra-hoy-y-la-historia-del-argentino-que-propuso-la-efemeride-nid20072023/. Acesso em: 14 jul. 2026. 

GUZMAN, Francisco; RIES, Brian. Quem foi São Valentim? Conheça a origem do Dia dos Namorados. CNN Brasil, 14 fev. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/quem-foi-sao-valentim-conheca-a-origem-do-dia-dos-namorados/. Acesso em: 14 jul. 2026. 

HOLT-LUNSTAD, Julliane et al. On the importance of relationship quality: the impact of ambivalence in friendships on cardiovascular functioning. Annals of Behavioral Medicine, 1 set. 2007. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17600455/. Acesso em: 14 jul. 2026. 

ROBERTS, Michelle. Amigos fazem probabilidade de sobrevivência aumentar em 50%, diz estudo. BBC News, 28 jul. 2010. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2010/07/100728_amigossaudefn. Acesso em: 14 jul. 2026. 

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