Interpretação de texto no Enem: Linguagens 

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A interpretação de texto é o eixo central da prova de Linguagens do Enem. Veja quais temas costumam aparecer, como mapear as dificuldades da turma e como organizar o estudo considerando a Teoria de Resposta ao Item (TRI), para que os estudantes façam a prova com melhor aproveitamento. Por Rayane Pereira Silva

O que a prova de Linguagens costuma cobrar 

Instituído em 1998 para avaliar o desempenho dos estudantes ao fim da Educação Básica, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tornou-se uma das principais portas de entrada para o Ensino Superior, seja pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), seja pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), seja por instituições particulares. Por isso, identificar os assuntos que mais aparecem na prova de Linguagens é parte decisiva da preparação, tanto para quem estuda quanto para quem ensina. 

Os conteúdos de Língua Portuguesa que costumam aparecer na prova de Linguagens podem ser organizados em três eixos. O primeiro é a leitura, que reúne interpretação de texto, estrutura textual, análise do discurso, gêneros e literatura. O segundo é a escrita, com destaque para gêneros, múltiplas linguagens, coesão e gramática. O terceiro é a análise linguística e semiótica, que inclui variação linguística, semântica e estilística. 

Uma reportagem do G1 apresenta um mapeamento dos temas mais recorrentes e segue na mesma direção desses eixos: a interpretação é a competência central da área, e a gramática normativa raramente aparece isolada. As regras são cobradas em contexto, e o estudante precisa explicar o efeito que determinado recurso produz naquele texto, e não apenas nomeá-lo. Também aparecem na prova textos não verbais, como gráficos, tabelas, tirinhas e charges. Na prática, vale mais ter repertório de leitura, atenção ao objetivo do texto e domínio dos recursos expressivos do que carregar regras decoradas. 

Compreender não é o mesmo que interpretar 

Compreender é decodificar o que está dito de modo explícito no texto. Interpretar vai além: exige relacionar pistas, fazer inferências com base no que está implícito e relacionar o que se leu ao repertório, sempre com apoio no próprio texto. Para isso, a leitura deve considerar a finalidade do texto, quem o escreveu (emissor), a quem ele se dirige (receptor), o tipo de linguagem empregado e os conectivos que organizam as ideias, indicando oposição, adição, conclusão ou concessão. 

Esses fatores aparecem em conteúdos variados: a estrutura e a função social de gêneros textuais como notícia, reportagem, artigo de opinião, anúncio e charge; a variação linguística, que envolve norma-padrão, usos coloquiais, variedades regionais e preconceito linguístico; as funções da linguagem; e figuras como metáfora, ironia, antítese e hipérbole. Na Matriz de Referência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a competência de área 5 pede ao estudante que relacione textos aos seus contextos de produção e recepção, e as habilidades H15 a H17 tratam da ligação entre o texto literário, seu momento histórico e os valores humanos que ele carrega. 

Muitos estudantes acreditam que interpretar não exige estudo, e isso é um engano. Quem espera perguntas sobre o nome de um autor ou a definição de um conectivo costuma se surpreender com questões que pedem análise de contexto histórico, estilo de escrita e relações entre as orações. Interpretar é uma habilidade que se desenvolve com prática orientada. Por isso, durante os exercícios, é necessário destacar cada um desses elementos e mostrar como os conectivos contribuem para a construção do sentido entre as orações. 

O papel do professor na preparação 

Um bom ponto de partida é aplicar questões de edições anteriores do Enem e organizar os resultados por habilidade e por tema, e não só pelo total de acertos. Esse mapeamento orienta o professor na escolha do que deve ser retomado e ajuda o estudante a organizar seus estudos. 

Além disso, é preciso classificar o erro. Na correção, vale perguntar por que determinada alternativa foi marcada: o estudante interpretou incorretamente o comando? Não reconheceu o gênero? Ignorou um conectivo que alterou o sentido do trecho? Escolheu um distrator, isto é, uma alternativa com informação verdadeira, mas incorreta, pois não responde ao que foi perguntado? 

Registrar as possíveis causas de cada erro revela padrões que a contagem de acertos esconde. Para nós, professores, isso significa levar questões de provas anteriores para a sala e tornar visíveis todos os elementos que ajudam a chegar à resposta: o comando, o objetivo do texto, o emissor, o receptor, a linguagem, os conectivos, a escola literária e o período histórico. Quando os estudantes sabem o que observar, ganham autonomia para resolver também questões com as quais ainda não tiveram contato. 

Incluir os próprios estudantes nesse processo é fundamental. Quando registram em que tipo de questão erram com mais frequência, passam a estudar com objetivos mais claros. 

Estratégias para a prova considerando a TRI 

A Teoria de Resposta ao Item (TRI) é utilizada no Enem para estimar a proficiência dos participantes com base em três parâmetros de cada questão, conforme a nota técnica do Inep: poder de discriminação, dificuldade e probabilidade de acerto ao acaso. O resultado depende do padrão de respostas, e não apenas da quantidade de acertos. Segundo o Inep, a nota de cada participante depende do próprio conhecimento, e não do desempenho dos demais candidatos da mesma edição. 

Algumas decisões práticas decorrem daí. Acertar uma questão no chute não reduz a nota, mas vale menos do que um acerto coerente com o restante da prova; por isso, a coerência das respostas deve ser um objetivo de estudo. 

Em Linguagens, isso significa consolidar primeiro o básico, como identificar o gênero, a finalidade e as relações entre as partes do texto, pois errar itens simples compromete mais do que deixar de acertar um item muito difícil. Também é importante treinar a leitura do comando e a eliminação de distratores, para que cada acerto resulte de raciocínio, e não de sorte. Assim, apresentar essas informações aos estudantes ajuda-os a escolher as melhores estratégias no dia do exame. 

Na leitura de cada questão, o ideal é começar pelo enunciado, que costuma aparecer depois do texto: saber o que procurar pode poupar tempo. Também é preciso observar o verbo que orienta a questão, já que “identificar”, “analisar” e “comparar” exigem caminhos diferentes. Outra estratégia importante é basear-se no texto, pois toda alternativa correta pode ser comprovada por elementos presentes nele. Palavras como “contudo”, “portanto”, “embora” e “no entanto” mudam a direção do argumento e revelam a intenção do autor. Se houver imagem, charge ou gráfico, é necessário analisar seus elementos junto com o texto verbal, uma vez que o sentido global nasce da relação entre os dois. 

Além disso, no dia do exame, é importante resolver primeiro as questões com as quais os estudantes têm mais facilidade, marcar as dúvidas para retomá-las depois e não deixar questões em branco. 

Reforçar esses aspectos em sala de aula e fazer exercícios que destaquem as etapas da leitura do texto, a análise das informações e a atenção ao comando contribui para que os estudantes façam o Enem com mais segurança e autonomia. 

Referências 

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Nota técnica: procedimento de cálculo das notas do Enem. Brasília, DF: Inep, 2011. Disponível em: https://institutoayrtonsenna.org.br/app/uploads/2023/09/proced_calculo_notas.pdf. Acesso em: 19 out. 2026. 

BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Matriz de Referência Enem. Brasília, DF: Inep, [s. d.]. Disponível em: https://download.inep.gov.br/download/enem/matriz_referencia.pdf. Acesso em: 19 out. 2026. 

CAPUTO, Gabriela. Linguagens no Enem: veja os temas que mais caem na prova e dicas para uma melhor interpretação. G1, 25 set. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/enem/2025/noticia/2025/09/25/linguagens-no-enem-veja-os-temas-que-mais-caem-na-prova-e-dicas-para-uma-melhor-interpretacao.ghtml. Acesso em: 19 out. 2026. 

Rayane Pereira Silva é licenciada em Letras, pós-graduada em Literatura e Língua Portuguesa, pós-graduanda em Neurociência, professora e assessora pedagógica de Literatura e Redação. 

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