Sem entrar muito nas teorias sobre língua e linguagem, vale a pena uma breve reflexão sobre o que o dicionário nos diz a respeito de uma e de outra. Enquanto língua pode ser entendida como um “sistema de representação constituído por palavras e por regras que as combinam em frases que os indivíduos de uma comunidade linguística usam como principal meio de comunicação e de expressão, falada ou escrita”; a linguagem seria “qualquer meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais etc.”. Com base nesses sentidos dados, como podemos enxergar os papéis da língua e da linguagem diante das diversas práticas sociais nos mais variados ambientes escolares?

A linguagem como prática social
A língua e a linguagem não podem ser limitadas a uma visão simplista de que ambas se prestam somente a um conjunto de regras. Claro que as normas são importantes, mas elas só fazem sentido quando relacionadas a determinados usos. E são esses diferentes usos que mais nos interessam neste momento. É nos contextos vários do uso da língua e da linguagem que mais observamos as práticas sociais.
Vejamos alguns exemplos. Quando um estudante escreve uma mensagem para um colega no WhatsApp, ele seleciona e organiza palavras, recursos visuais (emojis, figurinhas), de modo que correspondam às intenções da comunicação pretendida ali. Se esse mesmo estudante for escrever uma redação escolar ou um e-mail formal, deverá fazer escolhas diferentes. E o que muda? A prática social em que o estudante está inserido. Não existe prática de linguagem sem um determinado contexto, e a escola é um dos espaços mais apropriados para o desenvolvimento dessa visão.
Então, como os professores podem ajudar os estudantes a perceber que a escolha da linguagem deve ser adequada a cada prática social? Como mostrar que não existe linguagem “neutra” ou “isolada”, mas sim usos contextualizados, situados, que revelam valores, crenças e intenções? Que tal abandonarmos a ideia de certo versus errado para, no lugar, falarmos em adequado e inadequado? Eis um bom início para começarmos a pensar respostas a essas perguntas.
A sala de aula como espaço de múltiplas linguagens
De certa maneira, professores e estudantes convivem diariamente com um mosaico de práticas sociais que se manifestam em diferentes gêneros do discurso. No começo da aula, por exemplo, ao chamar a atenção da turma, os professores costumam recorrer a expressões que carregam autoridade, mas também afeto: “Pessoal, vamos nos organizar?”; ou “Silêncio, por favor, para começarmos”.
Nos trabalhos em grupo, os estudantes negociam papéis, tomam decisões, justificam escolhas… Práticas que refletem cooperação, liderança, negociação, entre outras.
Já nos bilhetes para as famílias ou nas circulares, encontramos um tom informativo e, ao mesmo tempo, persuasivo: “Solicitamos a presença dos responsáveis na reunião da próxima semana”.
Nas redes sociais da escola, há postagens que misturam linguagem institucional e recursos típicos da comunicação digital, buscando proximidade e entendimentos entre estudantes, familiares, professores, coordenadores e direção.
Cada uma dessas situações mostra como a linguagem deve se adequar diante de cada contexto, levando em conta quem fala, para quem se fala e as intenções pretendidas.
Trabalhando gêneros textuais como práticas sociais
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) nos oferece pistas valiosas sobre ensino e aprendizagem dos diferentes gêneros discursivos. Cada gênero está intrinsicamente relacionado a uma prática social. Uma notícia não pode existir sem o gênero jornalístico; um poema não existe sem alguma tradição literária; uma ata não existe sem uma determinada organização. Assim, ao trabalhar com algum gênero, é preciso ajudar o estudante a enxergar seus alicerces. Em todos os casos, o foco não é apenas aprender estruturas e regras da norma-padrão; mas, principalmente, compreender a função social da linguagem.
O desafio é trabalhar constantemente para ampliar repertórios, de modo que os estudantes saibam usar a linguagem em diferentes situações sociais, como escrever uma carta de solicitação, ler criticamente uma reportagem, interpretar gráficos em uma aula de Ciências, apresentar oralmente um trabalho com clareza e objetividade etc. Isso significa que falar sobre linguagem é falar sobre modos de participação social.
Linguagem e poder: formando cidadãos críticos
É muito relevante levar os estudantes a reconhecer que a linguagem não é neutra. Ela pode reforçar desigualdades ou contribuir para transformá-las. No ambiente escolar, isso aparece em situações em que há disseminação de piadas preconceituosas – muitas vezes, estudantes repetem expressões sem perceber a carga discriminatória e preconceituosa que carregam; por isso, certamente cabe intervir, mostrando como certas palavras sustentam exclusões.
Obviamente, é importante ensinar a norma-padrão, mas sem desvalorizar a variedade linguística dos estudantes. Cada maneira de falar tem um lugar, e dominar diferentes tipos de registro é um recurso de empoderamento social. Exercitar a leitura crítica da mídia, analisando notícias, propagandas e postagens, ajuda a identificar intenções, manipulações e fake news, ampliando a consciência cidadã dos estudantes. Assim, ensinar linguagem é também ensinar a pensar criticamente sobre a sociedade.

O professor como mediador das práticas sociais
Ao pensarmos a linguagem como prática social, compreendemos que o trabalho docente não é apenas ensinar regras ou cobrar redações e determinados discursos. É isso e muito mais. É abrir janelas para que os estudantes enxerguem a linguagem como instrumento de participação no mundo, reconhecendo a existência do outro, percebendo que sem o outro não há interação, e sem interação qual seria a função da linguagem?
Em vez de agir como um doutrinador de normas e regras, o professor tem a função de mediar a construção do conhecimento por meio de diálogos democráticos, em que a construção deve ser permanente, crítica, mas ao mesmo tempo empática e amorosa, no sentido de tornar o estudante cada vez mais autônomo em relação às construções do conhecimento de modo geral.
A linguagem como vida em movimento
Quanto mais os professores incentivarem os estudantes a escrever, falar, ouvir, ler e interagir, mais capacidade de atuação social esses estudantes desenvolverão. É preciso ajudá-los a perceber que a linguagem é a ponte que estabelece os caminhos para as construções individuais e coletivas, para o desenvolvimento sadio de suas relações com colegas, professores, familiares e com o mundo de maneira geral, de modo a compreender as relações entre o passado, o presente e o futuro.
Se a escola é um espaço de formação integral, a linguagem, diante de suas práticas sociais, é o fio que costura todas as experiências vividas ali. Cabe aos professores entender sua relevância e criar situações para que os estudantes experienciem ao máximo suas potencialidades, de modo a constantemente, dia após dia, juntos, transformar e ressignificar as diversas práticas de linguagens que os cercam.
Helder L. Tiso
Editor de didáticos na Editora Órbita.
Referências
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 49. ed. São Paulo: Loyola, 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LÍNGUA. In: DICIONÁRIO Houaiss da Língua Portuguesa. UOL. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br. Acesso em: 28 set. 2025.
LINGUAGEM. In: DICIONÁRIO Houaiss da Língua Portuguesa. UOL. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br. Acesso em: 28 set. 2025.