A Educação de Jovens e Adultos (EJA) representa uma importante política de garantia do direito à educação para pessoas que, por diferentes motivos, não concluíram a escolarização na idade considerada regular. Entretanto, assegurar a matrícula é apenas parte do desafio. Permanecer na escola, aprender e sentir-se pertencente ao ambiente escolar são atitudes que dependem sobretudo da capacidade de reconhecer quem são esses estudantes e quais histórias carregam consigo.
Os sujeitos da EJA não chegam à escola como páginas em branco. São trabalhadores, mães, pais, avós, empreendedores, agricultores, profissionais de diferentes áreas e cidadãos que acumulam conhecimentos construídos ao longo da vida. Cada estudante traz consigo experiências de trabalho, de participação comunitária, de cuidado com a família e de enfrentamento de desafios que constituem um repertório rico e potente para o processo educativo.
Como defendia Paulo Freire (1996), ensinar exige respeito aos saberes dos educandos. Isso significa compreender que a aprendizagem não começa na escola, mas nas experiências vividas pelos sujeitos. Na EJA, essa perspectiva é ainda mais relevante, pois os estudantes chegam à sala de aula carregando histórias, conhecimentos e competências desenvolvidos em diferentes contextos sociais, familiares e profissionais.
Ensinar adultos exige reconhecer suas trajetórias
Um dos desafios históricos da EJA é romper com práticas pedagógicas originalmente pensadas para crianças e adolescentes. Muitas vezes, essa inadequação aparece na linguagem utilizada, na escolha de exemplos, nas atividades propostas e até nos materiais didáticos.
Esse processo, conhecido como infantilização dos estudantes, desconsidera que aprender na vida adulta não significa retornar à infância. O estudante da EJA dispõe de autonomia, repertório cultural e experiências que precisam ser reconhecidas como parte do processo educativo.
Nesse sentido, Miguel Arroyo (2017) afirma que os estudantes da EJA são sujeitos de direitos, marcados por trajetórias de trabalho, exclusão e resistência. Sua escolarização precisa reconhecer essas vivências e dialogar com elas, em vez de ignorá-las.
Ensinar adultos, portanto, não significa simplificar conteúdos, mas contextualizá-los. O currículo torna-se mais significativo quando aborda situações relacionadas ao mundo do trabalho, à organização financeira, ao acesso a direitos, à saúde, à cidadania, às tecnologias e às experiências cotidianas dos próprios estudantes.
Marta Kohl de Oliveira (1999) também destaca que jovens e adultos aprendem mobilizando conhecimentos acumulados ao longo da vida, construídos em diferentes espaços sociais. Por isso, a aprendizagem acontece de forma mais significativa quando novos conhecimentos dialogam com aquilo que o estudante já sabe.
Também é importante compreender que o percurso leitor de um adulto pode ser diferente daquele esperado para sua faixa etária. Um estudante que inicia ou retoma seu processo de alfabetização pode necessitar de mediações específicas sem que isso implique oferecer materiais infantis ou reduzir a complexidade dos temas abordados.
A preocupação em desenvolver materiais que dialoguem com as especificidades da EJA também se reflete nas produções didáticas mais recentes. No PNLD Literário Equidade – EJA, o Grupo Editorial Multiverso das Letras inscreveu quatro obras para avaliação. Após o processo de análise técnica, pedagógica e literária conduzido pelo Ministério da Educação (MEC), três delas foram aprovadas para compor o programa, evidenciando o compromisso do grupo editorial com a produção de materiais que respeitam a diversidade de trajetórias, experiências e percursos de aprendizagem dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos.
Entre essas obras, destaca-se Tão alto quanto uma montanha, e o Caderno de Sugestões do Educador(a) Mediador(a) orienta que um adulto pode interessar-se por livros frequentemente associados à literatura infantil, desde que essas obras respeitem sua inteligência, apresentem múltiplas camadas de leitura e dialoguem com experiências humanas universais, como deslocamentos, pertencimento, alfabetização e construção de novos projetos de vida.
Essa perspectiva reforça que produzir materiais para a EJA não significa simplificar conteúdos ou recorrer a abordagens infantilizadas, mas criar experiências de leitura capazes de reconhecer a maturidade, os saberes e as vivências de jovens, adultos e idosos que retornam à escola.
Entre o trabalho e a escola: o desafio da permanência
Outro aspecto fundamental da EJA é compreender que muitos estudantes chegam à escola após uma longa jornada de trabalho.
São pessoas que enfrentam deslocamentos extensos, responsabilidades familiares, cuidados com filhos e outras demandas que tornam a rotina bastante intensa. O cansaço físico e mental interfere diretamente na concentração, na participação nas aulas e na realização das atividades.
Nesse contexto, interpretar faltas frequentes ou dificuldades de aprendizagem apenas como desinteresse significa ignorar as condições concretas de vida desses estudantes.
Miguel Arroyo (2017) lembra que os estudantes da EJA são, antes de tudo, trabalhadores. Muitos transitam diariamente entre o trabalho, a casa e a escola, enfrentando jornadas exaustivas que impactam diretamente sua permanência nos estudos. Pensar a qualidade da EJA implica reconhecer essa realidade e construir práticas pedagógicas capazes de acolher essas trajetórias.
Garantir a permanência na escola exige sensibilidade institucional e propostas pedagógicas flexíveis. Organizar sequências didáticas claras, valorizar atividades colaborativas, diversificar as formas de avaliação e construir ambientes acolhedores são estratégias que favorecem o engajamento e reduzem a evasão escolar.
Mais do que adaptar horários ou conteúdos, trata-se de compreender que o estudante da EJA precisa conciliar múltiplos papéis sociais enquanto busca retomar um direito dele que foi interrompido em algum momento da vida.

Literatura, identificação e pertencimento
Uma maneira potente de aproximar os conteúdos escolares da realidade dos estudantes é por meio da literatura.
Narrativas que abordam migrações, mudanças de vida, alfabetização, trabalho, pertencimento e novos começos favorecem processos de identificação, ampliando as possibilidades de diálogo e reflexão em sala de aula.
Na obra Tão alto quanto uma montanha, por exemplo, a história de Nusret convida os leitores a refletirem sobre deslocamentos, acesso à cultura escrita e construção de novos vínculos. O próprio material destinado aos educadores destaca que esses temas dialogam diretamente com as experiências de muitos estudantes da EJA, especialmente daqueles que migraram em busca de melhores oportunidades ou que retornam à escola para ampliar suas possibilidades de participação social e profissional.
Além disso, o caderno propõe que a mediação literária seja construída a partir de perguntas abertas, do compartilhamento de histórias pessoais e da valorização das diferentes experiências dos leitores, favorecendo um ambiente de escuta, pertencimento e construção coletiva de sentidos.
Essa perspectiva evidencia que os materiais didáticos destinados à EJA não precisam simplificar o conhecimento, mas estabelecer pontes entre os conteúdos escolares e as experiências concretas dos estudantes. Quando a aprendizagem faz sentido para quem aprende, o vínculo com a escola se fortalece e o conhecimento ganha novos significados.
Uma educação que respeita quem aprende
Construir práticas e materiais para a EJA significa reconhecer que aprender na vida adulta não é voltar a ser criança.
É oferecer propostas pedagógicas que respeitem a maturidade dos estudantes, dialoguem com seus contextos sociais e valorizem os conhecimentos construídos ao longo da vida.
Desse modo, recursos educacionais que favorecem a contextualização dos conteúdos, promovem a mediação da leitura, valorizam diferentes trajetórias e estimulam o protagonismo dos estudantes tornam-se importantes aliados do trabalho docente. Além de apoiar o ensino de conteúdos, eles contribuem para fortalecer vínculos, ampliar repertórios e favorecer a permanência dos estudantes na escola.
A EJA reafirma diariamente que nunca é tarde para aprender. E cabe à escola garantir que esse recomeço aconteça com respeito, acolhimento e significado.
Referências
ARROYO, Miguel G. Passageiros da noite: do trabalho para a EJA – itinerários pelo direito a uma vida justa. Petrópolis: Vozes, 2017.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF, 1996.
BRASIL. Resolução CNE/CEB nº 1, de 28 de maio de 2021. Institui as Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
68. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
OLIVEIRA, Marta Kohl de. Jovens e adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, n. 12, p. 59-73, 1999.
PAIVA, Jane. Educação de Jovens e Adultos: direito, concepções e sentidos. Rio de Janeiro: DP et Alii, 2016.
SETTON, Luisa. Caderno de Sugestões do Educador(a) Mediador(a): Tão alto quanto uma montanha. São Paulo: Viver Editora, 2025.
Rafaela Pinheiro é gerente de Projetos & Relação com as Redes no Grupo Editorial Multiverso das Letras. Licenciada em Educação Física e Ciências Biológicas, é pós-graduada em Gestão Pública e Gestão de Projetos. Atuou na formulação de políticas públicas e no desenvolvimento de materiais didáticos para redes públicas de ensino, com destaque para a coordenação de iniciativas voltadas à alfabetização de jovens, adultos e idosos. Participou da elaboração do material Muxirum, desenvolvido para a realidade sociocultural de Mato Grosso, trabalho reconhecido com dois prêmios, em níveis estadual e nacional, pela contribuição à educação pública.