A implementação da alfabetização científica nos anos iniciais do Ensino Fundamental transforma a sala de aula em um espaço de investigação, preparando os professores para mediar o desenvolvimento do pensamento crítico e da curiosidade natural das crianças através de práticas pedagógicas fundamentadas e integradas.
O papel do professor na construção do pensamento científico
A alfabetização científica nos anos iniciais do Ensino Fundamental vai muito além de memorizar nomes de plantas, planetas ou fórmulas simples. Trata-se, essencialmente, de ensinar as crianças a lerem o mundo sob a ótica da observação, da investigação e da busca por evidências. Para os professores que atuam do 1o ao 5o ano, esse desafio exige uma mudança de postura pedagógica: o docente deixa de ser o detentor de respostas prontas e passa a atuar como um mediador da curiosidade. Estimular o questionamento sobre os fenômenos cotidianos é o primeiro passo para que o estudante aprenda a diferenciar fatos de meras opiniões, estruturando uma base intelectual sólida.
Para que essa mediação seja efetiva, a formação docente precisa romper com o modelo tradicional de ensino de Ciências, que historicamente privilegiou a reprodução de conteúdo em detrimento do fazer científico. Quando o professor se apropria de metodologias baseadas na investigação guiada, ele cria oportunidades para que os alunos formulem hipóteses, testem suas ideias e comuniquem suas conclusões. Essa prática desenvolve habilidades cognitivas complexas e competências socioemocionais como a persistência e o trabalho em equipe, que são fundamentais para a formação cidadã contemporânea.
Outro ponto crucial na atuação do professor dos anos iniciais é a superação do mito de que a Ciência é um saber isolado e complexo demais para a infância. A abordagem científica nessa etapa deve ser integrada ao processo de alfabetização e letramento, demonstrando que a linguagem escrita, a matemática e as ciências naturais caminham juntas na interpretação da realidade. Ao ler um gráfico de temperatura ou produzir um relatório simples sobre o crescimento de uma planta, o estudante exercita simultaneamente suas competências linguísticas e seu raciocínio lógico-científico.
Metodologias ativas e a prática investigativa na sala de aula
A consolidação da alfabetização científica exige o abandono de aulas puramente expositivas e a adoção de metodologias ativas de aprendizagem. Práticas como o Ensino de Ciências por Investigação (ENCI) e a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL, sigla que vem do inglês Problem-Based Learning) colocam o estudante no centro do processo de construção do conhecimento. Diante de um problema real – como o sumiço do lixo orgânico na composteira ou o comportamento da luz e da sombra em diferentes horários do dia, as crianças são motivadas a desenhar pequenos experimentos e observar padrões de forma sistemática.
No entanto, realizar atividades experimentais com turmas numerosas nos anos iniciais requer planejamento e acolhimento do conceito de incerteza na ciência. O professor deve preparar o ambiente sabendo que os experimentos escolares podem falhar ou gerar resultados inesperados. Longe de ser um problema, a frustração decorrente de uma hipótese não confirmada deve ser aproveitada como um riquíssimo momento pedagógico. Investigar o porquê de um resultado ter sido diferente do esperado é o que mais aproxima os estudantes do verdadeiro trabalho realizado por cientistas em laboratórios ao redor do mundo.
Além disso, o uso de materiais simples e de baixo custo viabiliza a experimentação mesmo em escolas que não dispõem de laboratórios estruturados. O foco não deve estar na sofisticação dos equipamentos, mas na qualidade das interações e no rigor do método científico adaptado à infância. Registrar observações por meio de desenhos, tabelas simplificadas e relatos orais coletivos ajuda a sistematizar o conhecimento e permite que o professor avalie o desenvolvimento do pensamento lógico de cada aluno de maneira contínua e processual.

Desafios formativos e a valorização do etnoconhecimento
O principal entrave para a consolidação dessas práticas pedagógicas reside na fragilidade da formação inicial de professores nos cursos de Pedagogia, que muitas vezes priorizam as metodologias de alfabetização e deixam em segundo plano os fundamentos das ciências naturais. Essa lacuna gera insegurança conceitual, fazendo com que muitos docentes evitem abordar temas científicos de maneira mais profunda. Programas de formação continuada focados na prática de laboratório e na discussão de conceitos físicos, químicos e biológicos básicos são urgentes para devolver aos professores a segurança necessária para conduzir investigações em sala de aula.
Ademais, a abordagem contemporânea da alfabetização científica defende a integração entre o conhecimento acadêmico e os saberes tradicionais locais, também chamados de etnoconhecimento. Compreender como comunidades ribeirinhas, indígenas ou rurais manejam o solo e utilizam plantas medicinais enriquece o currículo de Ciências e promove o respeito à diversidade cultural. Essa conexão com a realidade local contextualiza o aprendizado, mostrando aos alunos que a Ciência não é um saber restrito aos grandes centros urbanos, mas uma ferramenta humana de adaptação e sobrevivência desenvolvida por diferentes povos ao longo da história.
A valorização do fazer científico desde os anos iniciais funciona como um poderoso antídoto contra a desinformação e o negacionismo que afetam a sociedade atual. Quando uma criança aprende a exigir evidências, a analisar dados com criticidade e a reconhecer os limites explicativos das ciências, ela desenvolve imunidade cognitiva contra notícias falsas. Investir na formação científica dos professores da infância é, portanto, um compromisso com o fortalecimento da democracia e com o desenvolvimento social e tecnológico do país. Em consonância com esse propósito de disseminar saberes transformadores, projetos de fomento à leitura e à escrita científica encontram grande eco em iniciativas como as promovidas pela Viver Editora, que atua ativamente na difusão de materiais educativos de qualidade.
Referências
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SANTOS, Wildson Luiz Pereira dos. Educação científica humanística em uma perspectiva freireana: resgatando a função do ensino de CTS. Alexandria Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, Florianópolis, v. 1, n. 1, p. 109-131, mar. 2008. ISSN 1982-5153. Disponível em: https://biblat.unam.mx/hevila/AlexandriaFlorianopolis/2008/vol1/no1/6.pdf. Acesso em: 10 jun. 2026.
Nathalie E. P. Lousan
Bióloga, pedagoga, mestre em Educação e doutora em Ciências: pesquisa com foco na formação continuada docente e nas metodologias ativas de aprendizagem. Assessora Pedagógica na Editora Órbita.