“A primeira tarefa da educação é ensinar a ver… É através dos olhos que as crianças namoram o mundo e aprendem a cuidar dele.” (Rubem Alves)
Quer ir além do óbvio neste Dia Mundial do Meio Ambiente? Descubra como usar a literatura interativa para criar projetos inesquecíveis, repletos de estímulos sensoriais, música e conexão socioemocional com seus alunos de 5 a 7 anos.
Celebrado em 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente está chegando. Com ele, uma velha pergunta sempre ecoa na mente de todo professor: como abordar esse tema com os alunos sem cair no formato tradicional de apenas listar regras? Nessa fase de transição tão rica entre a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental, as crianças precisam de movimento, toque, som e, acima de tudo, afeto para que o aprendizado faça sentido. É aqui que a literatura infantil se torna nossa maior aliada, transformando conceitos científicos abstratos em experiências vivas e palpáveis.
Para nós, que conhecemos de perto a realidade e os desafios do chão de escola, o segredo para construir uma sensibilização ecológica duradoura está em conectar a mente e o coração dos pequenos.
Ao longo deste artigo, você vai encontrar estratégias práticas, dinâmicas e brincadeiras artísticas inspiradas em livros para tornar esse tema mais vivo, criativo e inesquecível para as crianças.
Dinâmicas poéticas para turmas investigativas
Para abrir o projeto na sua sala de aula, as obras interativas Pingo e Semente, da autora Maggie Li (Cantinela Editora), oferecem ganchos pedagógicos fantásticos. Pingo narra a jornada de uma gotinha que some pelo ralo e atravessa o ciclo da água.
Você pode começar a aula antes mesmo de abrir o livro. Crie uma atmosfera sensorial: coloque um som suave de chuva ao fundo, pendure gotinhas de papel azul em um guarda-chuva no teto da sala e borrife um pouco de água no ar para os alunos sentirem na pele.
Ao avançar na história, transforme a leitura em um reconto concreto. Utilize objetos reais para representar o caminho do Pingo: um pedaço de cano transparente para o ralo, tecidos azuis esticados no chão para o rio e o mar, e uma nuvem de algodão. Para fechar com chave de ouro, desenvolva uma atividade científica e tátil fazendo uma receita de gelatina azul com a turma. Deixe que as crianças observem a transformação da água líquida para o estado sólido e pergunte: “A água continua aqui? O que mudou?”. Isso estimula o pensamento simbólico e a curiosidade natural de forma totalmente lúdica.
Já com a obra Semente, o foco se volta para a resiliência e a paciência. O livro humaniza o ciclo vegetal, mostrando os desafios da sementinha diante do frio, do vento e da tempestade até virar uma grande árvore. Para trazer essa história para o mundo real, que tal reaproveitar capinhas acrílicas vazias de CD para criar “estufas transparentes”? Ao colocar um pouco de terra e plantar sementes ali dentro, o formato achatado do acrílico obriga a semente a crescer rente ao plástico. Assim, os alunos conseguem observar o “raio X” da natureza: as raízes rasgando a casca e se espalhando pela terra enquanto o broto sobe em direção ao sol. Para enriquecer ainda mais essa investigação, que tal propor uma vivência de degustação de frutas? Como a jornada da obra começa justamente dentro de uma maçã, você pode levar diferentes frutos para a sala, abri-los com as crianças e mostrar como cada um esconde formatos, cores e tamanhos distintos de sementes. É uma experiência deliciosa que une nutrição, ciências e percepção sensorial.
Da reflexão à ação: formando guardiões da natureza na escola

Depois de mergulhar na poesia da natureza, é hora de convocar a turma para a prática com o livro Natureza: você sabe cuidar dela?, de Radka Píro. A dinâmica do livro é excelente para trabalhar causa e efeito: ele mostra primeiro os erros comuns que cometemos em parques, florestas e cidades – como o desperdício de água, a poluição e os maus-tratos aos animais –; e, ao levantar a aba, revela a atitude correta a ser tomada.
Você pode transformar a estrutura visual do livro em um jogo de percurso, no qual as crianças avançam casas ao responder perguntas e resolver situações do cotidiano, como: “Encontramos lixo no chão do parque, o que devemos fazer?” ou “Qual atitude ajuda a economizar água?”. A dinâmica pode ser feita em grupos, incentivando cooperação, conversa e reflexão sobre o cuidado com a natureza. Promova uma oficina de reciclagem para estruturar uma coleta seletiva real dentro da sala de aula, ensinando os alunos a separar os materiais. Para os momentos de expressão artística e musical, use garrafinhas PET vazias com areia colorida para construir chocalhos que imitam o som do mar, organizando uma bandinha rítmica com canções do nosso folclore.
Essas vivências práticas ajudam a fixar a importância da sustentabilidade no cotidiano de forma leve e divertida. Ao puxar as abas do livro e associar a brincadeira à rotina escolar, a criança compreende que pequenas ações – como fechar a torneira ou separar o papel do lixo orgânico – geram um impacto real no planeta. O papel do educador, portanto, ganha força ao atuar como o mediador que transforma essas páginas coloridas em hábitos conscientes e cidadãos.
O papel do educador como mediador da transformação socioambiental
Mediar a leitura na infância é plantar sementes de empatia que florescerão por toda a vida. Quando escolhemos livros que equilibram perfeitamente o encanto literário e a reflexão prática, damos aos nossos alunos as ferramentas necessárias para que eles compreendam o mundo e suas próprias emoções. O Dia Mundial do Meio Ambiente não precisa ficar restrito a uma data no calendário; ele pode se transformar no ponto de partida para um ano letivo muito mais rico, sensível e conectado com a vida.
Contar com o apoio pedagógico de projetos bem estruturados e livros de alta qualidade, como os da Cantinela Editora e da Viver Editora, torna a jornada do professor muito mais segura e inspiradora. Que tal escolher uma dessas estratégias e começar a transformação na sua sala de aula esta semana? Seus alunos – e o planeta – com certeza vão agradecer esse gesto de cuidado. Afinal, como bem nos ensinou o Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire:
A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas.
As pessoas transformam o mundo. E quando mudamos o olhar de
uma criança através do afeto e da leitura, o futuro do nosso planeta
ganha uma nova hipótese.
Referências
ALVES, Rubem; DIMENSTEIN, Gilberto. Fomos maus alunos? Campinas: Papirus, 2003.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LI, Maggie. Pingo. Tradução de Ana Carolina Teixeira. Coleção Pequenos ciclos, grandes aventuras. Hortolândia: Cantinela Editora, 2024.
LI, Maggie. Semente. Tradução de Ana Carolina Teixeira. Coleção Pequenos ciclos, grandes aventuras. Hortolândia: Cantinela Editora, 2024.
PÍRO, Radka. Natureza: você sabe cuidar dela? Ilustrações de Brian Fitzgerald. Tradução de Lucas Ariel. Hortolândia: Cantinela Editora, 2024.
Maressa Manfre é formada em Educação Artística e pós-graduada em Psicopedagogia. Além de cofundadora do projeto Fabricando Música, atua nos setores de curadoria e edição da Cantinela Editora.
Talita Bianchini é editora, educadora e especialista em Neuropsicopedagogia e Educação Musical. Tem mais de 20 anos de experiência em infância e formação de educadores.
Anne Medeiros é pedagoga, especialista em Educação Musical e editora de livros infantis. Tem experiência em alfabetização, criatividade e formação de leitores.