Após a consulta médica, você se depara com um receituário e orientações com terminologia técnica. Ao perguntar sobre a causa da doença, você ouve do profissional de saúde palavras incomuns. Em sua mão, uma lista de exames e procedimentos em que você, de novo, esbarra em nomes que tampouco entende.
Nesse cenário entra a expressão inglesa “health literacy”, conhecida em português como letramento em saúde, que se refere à capacidade de compreender informações médicas e entender termos próprios dos serviços de saúde.
Hoje é comum ir a redes sociais ou sites especializados buscar a “tradução” de um encaminhamento de exame, ou mesmo tentar compreender a causa de uma doença numa linguagem mais acessível. No Brasil, o conceito de letramento em saúde surge a partir de 1980, embora a preocupação por melhor compreender a informação médica tenha se iniciado na década de 1970 nos Estados Unidos e na Europa.
Níveis de letramento
Não conseguir entender instruções médicas e rótulos de medicamentos pode impactar diretamente a saúde pessoal e familiar. A literatura científica define que “o letramento em saúde é o grau em que indivíduos têm a capacidade de obter, processar e entender informações e serviços básicos de saúde necessários para tomar decisões apropriadas de saúde” (IOM, 2004).
Estudos como os de Berkman et al. (2011) confirmam que o baixo letramento em saúde compromete a segurança do paciente e resulta em piores desfechos clínicos. No atual contexto de complexidade nos sistemas de saúde, a capacidade de saber navegar entre serviços, compreendendo riscos e benefícios de tratamentos, tornou-se vital (Nutbeam, 2000).
Um exemplo de implicação grave é resistir ao tratamento por não captar todas as consequências em relação a diagnóstico, tratamento, receituário e orientação médica. Isso leva a negligenciar rotinas no controle de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, câncer e enfermidades metabólicas.

Benefícios da educação em saúde
O desenvolvimento do letramento em saúde é fundamental para que indivíduos se tornem agentes ativos no manejo de sua própria saúde, principalmente no autocuidado e na tomada de decisões. Importante conceito foi criado por Norman e Skinner (2006) ao defenderem a necessidade da promoção da saúde em ambientes digitais em tempos de informação on-line. A seguir, benefícios de uma educação para o letramento em saúde:
Tomada de decisões informadas: permite que o paciente compreenda as opções de tratamento, seus riscos e benefícios, participando ativamente das decisões clínicas (Nutbeam, 2000).
Fortalecimento do autocuidado: indivíduos letrados em saúde gerenciam melhor doenças crônicas, aderem às terapias prescritas e adotam comportamentos preventivos (Berkman et al., 2011).

Prevenção de doenças: compreender informações sobre vacinação, rastreamento de câncer e práticas preventivas contribui para a redução da incidência de doenças evitáveis (Sørensen et al., 2012).
Promoção da saúde: capacita escolhas relacionadas a alimentação saudável, prática de atividades físicas e redução de comportamentos de risco (Berkman et al., 2011).
Referências
BERKMAN, N. D., Sheridan, S. L., Donahue, K. E., Halpern, D. J., & Crotty, K. (2011). Low health literacy and health outcomes: an updated systematic review. Annals of Internal Medicine, 155(2), 97-107. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21768583/. Acesso em: 5 de jun. 2025.
IOM – Institute of Medicine (IOM). (2004). Health Literacy: A Prescription to End Confusion. Washington, DC: The National Academies Press. Disponível em: https://nap.nationalacademies.org/catalog/12690/measures-of-health-literacy-workshop-summary. Acesso em: 5 jun. 2025.
NORMAN, C. D., & SKINNER, H. A. (2006). eHealth Literacy: Essential Skills for Consumer Health in a Networked World. Journal of Medical Internet Research, 8(2), e9. Disponível em: https://www.jmir.org/2006/2/e9/. Acesso em: 5 jun. 2025.
NUTBEAM, D. Health literacy as a public health goal: a challenge for contemporary health education and communication strategies into the 21st century. Health Promotion International, v. 15, n. 3, p. 259-267, 2000.
SORENSEN, K. et al. (2012). Health literacy and public health: A systematic review and integration of definitions and models. BMC Public Health, 12(1), 80.
Jael Eneas, Educador
Viver Editora
Multiverso das Letras