Redes sociais e saúde mental: o peso histórico nos hábitos de um novo tempo

Pessoa sentada em um sofá com as mãos entrelaçadas, vestindo calça clara e blusa escura, em frente a outra pessoa que segura uma prancheta e uma caneta, sugerindo um ambiente de atendimento psicológico ou sessão de terapia.
O avanço das redes sociais transformou profundamente os hábitos de sociabilidade, ampliando a exposição digital e seus impactos na saúde mental, especialmente entre os jovens. Ao mesmo tempo, o histórico de estigmas e práticas desumanas no tratamento psicológico exige uma abordagem mais consciente, empática e profissional diante dos desafios de um mundo hiperconectado.

O uso da tecnologia no mundo contemporâneo 

A influência da internet, em especial das redes sociais, em nossa saúde mental é pauta essencial nas discussões contemporâneas entre educadores, psicólogos, profissionais da tecnologia e de muitos outros ramos. A vida digital já não se separa do restante de nosso cotidiano, mas as reflexões sobre essa realidade ainda precisam de maior presença no senso comum. 

Para entender melhor como o fluxo constante de informações das redes sociais vem afetando a sociedade, podemos partir de um estudo publicado na National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (2024), do governo dos Estados Unidos: os adolescentes têm cada vez mais dificuldade em imaginar suas vidas sem as mídias sociais, mas tanto as preocupações com privacidade e cyberbullying como os efeitos ruins sobre a educação e a saúde mental são associados ao uso desses recursos. O mesmo estudo ainda afirma que, apesar das evidências crescentes dos efeitos negativos das mídias sociais sobre a saúde mental dos adolescentes, ainda há uma escassez de pesquisas empíricas sobre como os adolescentes compreendem tais tecnologias. 

Esse panorama evidencia um problema típico de nosso tempo: o intenso avanço tecnológico e a popularização de smartphones e redes sociais colocou nosso cotidiano de sociabilidade dentro de um fluxo de informações de difícil controle e curadoria, com consequências graves e complicadas de mensurar. Ou seja, estamos inseridos em uma realidade na qual as mídias sociais ganharam protagonismo nas relações sociais, como fonte de informações ou notícias e como espelho para determinar comportamento, aparência e estilo de vida. 

Pessoa segura um smartphone com uma mão enquanto cobre o rosto com a outra, em frente a um fundo desfocado de tons quentes, sugerindo sobrecarga emocional ou estresse relacionado ao uso do celular.
Homem demonstrando estresse ao utilizar o celular.

Redes sociais e seus efeitos

Para ilustrar como a exposição aos conteúdos das redes é alta, podemos olhar os dados divulgados no relatório Digital 2024: 5 Billion Social Media Users, publicado pela organização We Are Social. Os brasileiros gastam cerca de 9 horas e 13 minutos por dia na internet, atrás apenas dos sul-africanos. Com tanto tempo gasto on-line, quais são os tipos de conteúdo realmente saudáveis para consumir? Como esse tempo está impactando a população, especialmente os mais jovens? São perguntas que não têm respostas simples, mas os impactos negativos são cada vez mais comuns. 

Augusto Cury, estudioso das áreas de Psicologia e Educação, escreveu um livro intitulado Ansiedade: como enfrentar o mal do século. Sua primeira publicação aconteceu em 2013, e desde então as redes sociais ganharam muito mais força. Naquele tempo já havia grande preocupação com o alto número de diagnósticos de transtorno de ansiedade. 

Essa afirmação encontrou ressonância cerca de sete anos depois, quando a Netflix lançou o documentário O dilema das redes. O filme relata como as redes sociais são desenhadas para reter seus usuários pelo maior tempo possível e analisa de que modo o impacto do crescente hábito de passar longos períodos na internet tem afetado áreas como a política e, nosso foco neste momento, a saúde mental. O documentário aponta a correlação entre expectativas criadas pelo uso de redes sociais e o crescente número de diagnósticos de depressão e transtorno de ansiedade. 

O histórico dos cuidados com a saúde mental 

As redes sociais permitem contato entre pessoas queridas que moram longe, a agregação de comunidades em torno de um mesmo interesse e a possibilidade de se conectar com pessoas interessantes para o desenvolvimento pessoal e profissional. A grande quantidade de tempo gasto nelas, porém, tem sido vista como catalisador para diversos transtornos mentais, como mostra o documentário O dilema das redes. É um cenário em que urge a necessidade de acompanhamento profissional voltado à saúde mental. Entretanto, ainda existe muito estigma em torno de quem relata sofrer com esse tipo de problema e com a busca a ajuda de psicólogos ou psiquiatras. Os estereótipos em torno da saúde mental têm raízes profundas. Práticas hoje consideradas desumanas eram meio padrão de tratar até mesmo transtornos leves. 

Ao olharmos novamente para nosso próprio país, podemos citar o livro Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex. Publicada em 2014, a obra virou filme em 2016 e conta em detalhes o sofrimento dos internos no Hospital Colônia de Barbacena. Em um dos mais tristes episódios de nossa história, os pacientes sofriam violências físicas e viviam condições degradantes. O local chegou a abrigar por volta de 5 mil pacientes, mesmo contando com apenas duzentos leitos. Além disso, muitas internações eram fruto de preconceito e desigualdade, de modo que muitas pessoas indesejadas acabavam sendo internadas como maneira de exclusão social disfarçada de pretexto médico. Estima-se a morte de 60 mil pessoas. São verdadeiras memórias de terror, que se refletem na percepção coletiva sobre a Psicologia, a Psiquiatria e mesmo sobre os cuidados com saúde mental como um todo. 

Um dos maiores vanguardistas, que atuou diretamente em mudanças e avanços dessa realidade, foi Franco Basaglia (1924-1980), psiquiatra italiano que viajou pelo mundo divulgando seus inúmeros estudos sobre a ineficiência e crueldade das instituições psiquiátricas da época, pejorativamente chamadas de hospícios. No Brasil, uma das figuras mais importantes na luta pela humanização da Psiquiatria foi Nise da Silveira (1905-1999), que ficou conhecida mundialmente por revolucionar os tratamentos psiquiátricos por meio da arte, especialmente a pintura. Graças à atuação desses e de milhares de outros profissionais, temos hoje práticas muito mais confiáveis e empáticas, discussões mais conscientes e um combate mais efetivo, porém gradual, aos preconceitos e estereótipos. 

Mãos seguram o recorte de uma silhueta de cabeça humana com ilustração de cérebro e padrão de ondas de eletroencefalograma, simbolizando saúde mental e atividade cerebral.
Os cuidados com a mente devem ser redobrados visto a crescente relevância do mundo digital.

Uma urgência da atualidade 

É relativamente seguro dizer que as redes sociais não devem perder importância na sociedade. Sabendo disso e dos efeitos que elas podem ter sobre seus usuários, é imprescindível incentivar o uso consciente e cuidadoso. Caso a saúde mental esteja sob suspeita de fragilidade, devemos buscar profissionais capacitados para tratar adequadamente dessas questões. A tarefa de superar os preconceitos e estereótipos arraigados no imaginário popular não é trivial, mas sim um esforço primordial em razão das dinâmicas de um mundo cada vez mais hiperconectado. 

Independentemente da área de atuação profissional, a atenção e o cuidado com esse tema devem ser cada vez mais presentes. As juventudes, cada vez mais ativas no mundo digital, precisam do suporte e da orientação de suas famílias e de docentes para um diálogo sensível sobre o uso saudável de redes sociais. Toda a sociedade deve se conscientizar de que a cautela com o mundo digital é uma demanda de agora. Assim como já foi dito, as incertezas são muitas e o histórico é pesado, mas é preciso postura ativa para que a sociedade tenha mais saúde mental e responsabilidade digital.

Gabriel Verbena 

Educador | Professor | Geógrafo | Gestor Escolar 

Criador de Conteúdo na Multiverso das Letras 

LinkedIn 

Referências 

ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro: vida, morte e esperança no Hospital Colônia. São Paulo: Geração Editorial, 2013. 

CURY, Augusto. Ansiedade: como enfrentar o mal do século. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. 

FRANCO BASAGLIA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Franco_Basaglia. Acesso em: 18 set. 2025. 

NATIONAL Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (EUA). Social media and adolescent health. Washington, DC: The National Academies Press, 2024. Disponível em: https://nap.nationalacademies.org/catalog/27396/social-media-and-adolescent-health. Acesso em: 18 set. 2025. 

NISE DA SILVEIRA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2025. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nise_da_Silveira. Acesso em: 18 set. 2025. 

O DILEMA das redes. Direção: Jeff Orlowski. Produção: Larissa Rhodes. Estados Unidos: Netflix, 2020. 1 documentário (94 min). Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/81254224. Acesso em: 18 set. 2025. 

SOUZA, Ludmilla. “Vida perfeita” em redes sociais pode afetar a saúde mental. Agência Brasil, São Paulo, 20 fev. 2021. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-02/vida-perfeita-em-redes-sociais-pode-afetar-saude-mental. Acesso em: 18 set. 2025. 

WE ARE SOCIAL; MELTWATER. Digital 2024: 5 billion social media users. [S. l.]: We Are Social, 2024. Disponível em: https://wearesocial.com/us/blog/2024/01/digital-2024-5-billion-social-media-users/. Acesso em: 18 set. 2025.

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