A construção da identidade a partir da leitura na infância

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No Dia Nacional da Literatura Infantil, uma reflexão sobre como os livros moldam identidades, ampliam repertórios e revelam a importância de garantir que toda criança se reconheça nas histórias que lê.


O dia 18 de abril marca o Dia Nacional da Literatura Infantil, uma data que convida à celebração dos livros destinados às crianças, mas também à reflexão sobre quais infâncias têm sido representadas. O que significa crescer sem se reconhecer nas histórias que nos são contadas? Como isso impacta a formação leitora da criança?

A literatura infantil desempenha um papel fundamental na formação subjetiva dos indivíduos. É por meio dela que muitas crianças têm seu primeiro contato com noções de pertencimento, identidade e alteridade. No entanto, por muito tempo, o repertório disponível no país foi marcado por uma predominância de narrativas centradas em experiências que não contemplavam a diversidade étnica, social e cultural da população brasileira.

A ausência de representatividade não é neutra. Isso quer dizer que, quando uma criança não se vê nas histórias, seja na aparência dos personagens, seja em seus contextos familiares, seja nas realidades retratadas, há uma produção simbólica de exclusão. Por outro lado, quando há identificação, abre-se espaço para o reconhecimento, o fortalecimento da autoestima e a construção de uma relação mais positiva com o mundo ao redor.

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No campo da experiência individual, a construção dessa relação com a leitura também passa pelos personagens que nos acompanham na infância. No meu caso, é impossível dissociar a leitora que me tornei das figuras que me formaram desde cedo. Personagens como Raquel, de A bolsa amarela; a inventiva protagonista de A fada que tinha ideias; a questionadora Mafalda; o irreverente Menino Maluquinho; e, claro, os integrantes da Turma da Mônica foram presenças fundamentais nesse percurso e na minha formação enquanto leitora na infância. Sem esses personagens, eu certamente não teria me tornado a leitora que sou hoje.

Vemos, assim, um movimento significativo em direção à ampliação dessas representações. Na Via Lúdica, encontramos títulos que dialogam diretamente com essas questões ao apresentar infâncias diversas e socialmente situadas. Em Bagagem, por exemplo, a jornada de uma criança refugiada é narrada com sensibilidade, abordando deslocamento e pertencimento. Já o livro O marceneiro retrata a relação entre pai e filho, valorizando o brincar compartilhado e o afeto inclusive no cotidiano do trabalho. Em Lá fora, a autonomia e a imaginação da criança ganham destaque. Em Frido, vemos a realidade de tantos retirantes brasileiros que saem do interior em busca de uma vida com mais oportunidades. Juntas, entre tantas outras, essas obras ampliam o repertório de experiências representadas na literatura infantil, reforçando seu papel na construção de identidades plurais.

No entanto, a existência dessas obras, por si só, não garante o acesso a elas. É nesse ponto que as políticas públicas desempenham um papel decisivo. Projetos como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) são fundamentais para democratizar a circulação de livros de qualidade nas escolas públicas de todo o país. Ao selecionar e distribuir obras literárias, o PNLD influencia diretamente quais narrativas chegam às mãos de milhões de crianças brasileiras. Nesse contexto, iniciativas como o PNLD Equidade reforçam esse compromisso ao priorizar a valorização da diversidade e a promoção de materiais que contemplem diferentes identidades, trajetórias e contextos sociais, contribuindo para uma formação mais inclusiva e representativa desde os primeiros anos escolares.

Além dos programas já consolidados, novas iniciativas vêm ampliando as formas de acesso ao livro. A plataforma MEC Livros, lançada pelo Ministério da Educação, insere-se nesse movimento ao propor uma biblioteca digital pública e gratuita, com milhares de títulos que incluem desde clássicos até obras contemporâneas e livros infantis e juvenis. Mais do que uma inovação tecnológica, trata-se de um gesto político: ao investir em políticas públicas voltadas à leitura, o Estado reconhece o acesso ao livro como um direito, e não como privilégio. Em um país marcado por desigualdades históricas, iniciativas como essa reforçam que formar leitores é também uma estratégia fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, crítica e plural.

Assim, quando critérios de diversidade e representatividade são incorporados a essas políticas, cria-se a possibilidade de um impacto estrutural: histórias mais plurais deixam de ser exceção e passam a compor o cotidiano escolar. Isso contribui para a formação de leitores mais críticos e para a construção de uma sociedade que reconhece e valoriza suas múltiplas identidades. Essas obras diversificam os protagonistas e deslocam o olhar sobre a infância, reconhecendo-a como plural. Ao fazer isso, a literatura infantil atua também como um território político e formativo, no qual diferentes experiências podem ser legitimadas.

Celebrar o Dia Nacional da Literatura Infantil, portanto, implica ir além da valorização da leitura como prática. Trata-se de reconhecer o livro como um instrumento de disputa simbólica, ou seja, um espaço em que se decide quem pode ser visto, ouvido e imaginado. Nesse sentido, promover o acesso a narrativas diversas se transforma em um compromisso social. Afinal, além de mundos possíveis, toda criança merece encontrar reflexos de si mesma nas páginas de um livro.


Andressa Moreira
Editora de Literatura Infantil e Juvenil da Via Lúdica

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