A primeira edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi realizada em 1998 e teve cerca de 150 mil estudantes inscritos. Desde a sua origem, a redação já era parte constituinte da avaliação, com um caderno de 63 questões objetivas. Naquela época, a prova era como uma autoavaliação ao final do Ensino Médio e tinha adesão voluntária, um cenário completamente diferente do atual. Com o passar do tempo, algumas universidades e faculdades começaram a utilizar o resultado como um processo seletivo alternativo ou complementar. Esse movimento atraiu mais instituições, o que impulsionou o interesse do público e o número de participantes a cada ano.
Em 2009, o teste foi reformulado (Novo Enem), tornando-se a porta de entrada para universidades federais via Sisu (Sistema de Seleção Unificada), ProUni (Programa Universidade para Todos) e Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). A prova expandiu para 180 questões objetivas divididas em quatro áreas do conhecimento, introduziu a correção pela Teoria de Resposta ao Item (TRI) e adotou uma Matriz de Referência com 120 habilidades. Com isso, os itens passaram a avaliar a interpretação e a resolução de problemas contextuais, superando a simples memorização de conteúdo.
Teoria de Resposta ao Item
Na avaliação pela TRI, a nota não depende do número de acertos de todas as questões, mas do padrão coerente de respostas. As questões são classificadas entre fáceis, médias e difíceis. Por meio desse método, “chutar” e acertar uma questão difícil, enquanto erra várias fáceis, reduz a pontuação devido ao padrão de inconsistência do candidato. Uma boa estratégia para manter essa coerência é ler a prova por completo, a fim de identificar e sinalizar as questões a partir desse critério de dificuldade. Isso faz com que o candidato ganhe tempo ao priorizar os itens que trarão maior retorno para sua pontuação, deixe as questões mais complexas para o final e construa uma trajetória de resolução alinhada às expectativas da TRI, maximizando o valor de cada acerto.
Além do modelo de correção, as questões do Enem têm traços bem característicos. Destaca-se a interdisciplinaridade, na qual um único item articula temas de diferentes disciplinas. Somam-se a isso a contextualização por meio de diversos textos de apoio, o foco temático em cidadania e sociedade, e a presença de situações-problema. Paralelamente a esses fatores, as habilidades de leitura crítica aparecem de forma transversal, exigindo que o candidato infira objetivos do autor, reconheça o público a quem se destina o texto e identifique estratégias argumentativas de convencimento, como a comoção ou a intimidação.
Portanto, superar a leitura mecânica é um dos pilares para o sucesso no exame. Como destaca a especialista Karina Favaro no episódio Professor-leitor: o desafio de formar leitores críticos, do podcast da Revista Educação, a formação do leitor crítico exige o desenvolvimento de habilidades analógicas e a percepção de sutilezas no discurso. No Enem, essa competência se traduz na capacidade de analisar os textos-suporte, identificar intencionalidades e mapear os distratores para responder ao comando com precisão. Para aprofundar os desafios de formar leitores críticos, vale conferir o episódio completo no YouTube:
É importante ressaltar que a responsabilidade de promover e aplicar essa leitura crítica não pertence exclusivamente à área de Linguagens: ela perpassa todas as áreas do conhecimento contidas na avaliação. Cada disciplina traz gêneros textuais próprios, sejam textos científicos em Biologia, dados estatísticos em Matemática ou mapas e documentos históricos em Ciências Humanas; todos eles contribuem diretamente para expandir o repertório do estudante. Além disso, a interpretação no Enem vai muito além do texto verbal escrito. O candidato precisa estar preparado para analisar uma ampla diversidade de gêneros, incluindo os visuais, como tirinhas, cartoons, infográficos e charges e gráficos. Por isso, saber ler e interpretar imagens é uma habilidade indispensável para resolver as questões do exame.
Sobre essa perspectiva integradora das disciplinas e dos múltiplos gêneros textuais, vale a pena conferir o comentário da professora Carolina Madruga, docente de Língua Portuguesa em cursinhos preparatórios, no vídeo a seguir:
Trecho de videocast com a Profa. Carolina Madruga, extraído da trilha formativa da coleção Acerta + Enem (MWC Editora).
Redação no Enem
Conforme visto, essa abordagem multidisciplinar e contextualizada reforça como o formato do Enem se distancia dos vestibulares tradicionais. Outra diferença marcante é a ausência de uma lista fixa de obras literárias obrigatórias. A literatura é cobrada pela capacidade do estudante de refletir sobre questões sociais e articular diferentes gêneros textuais, habilidade que se conecta diretamente à Redação. Esta última é corrigida de forma anônima e independente por dois avaliadores, com base em cinco competências valendo de 0 a 200 pontos cada (em escalas de 0, 40, 80, 120, 160 e 200), podendo atingir até 1.000 pontos no total:
Competência I — Domínio da norma culta
Avalia ortografia, pontuação, concordância, regência e ausência de marcas de oralidade, observando tanto os desvios gramaticais quanto a estrutura sintática das orações.
Competência II — Compreensão do tema e estrutura dissertativo-argumentativa
Avalia o desenvolvimento da proposta dentro do gênero exigido e o uso de repertório sociocultural legitimado e produtivo (como dados estatísticos, fatos históricos, leis, obras literárias ou conceitos das Ciências Humanas).
Competência III — Seleção e organização de argumentos
Analisa a capacidade de selecionar, relacionar e organizar informações e opiniões em defesa de um ponto de vista consistente.
Competência IV — Coesão textual
Avalia a utilização de conectivos, pronomes e sinônimos para encadear as ideias entre frases e parágrafos de forma fluida.
Competência V — Proposta de intervenção
Avalia a elaboração de uma solução para o problema abordado, devendo respeitar os direitos humanos e ser composta obrigatoriamente por cinco elementos (agente, ação, meio/modo, efeito e detalhamento).
Caso haja uma diferença superior a 100 pontos na nota final da redação, ou de 80 pontos em qualquer uma das competências, entre os dois primeiros avaliadores, o Inep aciona uma terceira correção para garantir a precisão da nota.
Em suma, a trajetória histórica do Enem consolida sua transição de um instrumento de diagnóstico autoavaliativo para um exame complexo e estruturado. Compreender a lógica de suas questões, a dinâmica da TRI e o rigor de correção da Redação revela que o exame não busca testar a memorização passiva dos conteúdos, mas sim avaliar a capacidade analítica, a leitura crítica e a autonomia cidadã do candidato diante dos desafios contemporâneos.
Sobre a autora
Priscilla Lucena
Mestre em Linguística (UFSCar) – Pesquisadora em Avaliação e Ensino de Línguas, pós-graduada em Metodologias e Práticas para Educação Bi/Multilíngue (Instituto Singularidades) e em Metodologia do Ensino de Língua Inglesa (Faculdade São Luís).