Você, professor ou professora de Matemática, que trabalha com estudantes do Ensino Médio, sabe o quanto é desafiador prepará-los para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e para os diferentes vestibulares que dão acesso ao Ensino Superior no Brasil.
Esse desafio está relacionado a diferentes fatores. Um deles envolve uma tradição de ensino pautada pela memorização e repetição de conceitos e regras, muitas vezes descontextualizados. Quando priorizamos procedimentos mecânicos em detrimento da compreensão dos conceitos, limitamos as oportunidades de os estudantes desenvolverem habilidades para resolver situações-problema, interpretar textos, analisar dados e mobilizar conhecimentos matemáticos em diferentes contextos.
Para transformar esse cenário, precisamos repensar o planejamento das aulas desde o Ensino Fundamental, priorizando o desenvolvimento do letramento matemático.
O objetivo deste artigo é relacionar o ensino orientado pelo letramento matemático ao diagnóstico das aprendizagens e à preparação dos estudantes para o Enem.
Por onde começar?
O primeiro passo é reconhecer que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Matriz de Referência do Enem apresentam uma importante convergência ao valorizarem o desenvolvimento de competências e habilidades que permitem aos estudantes mobilizar conhecimentos matemáticos para resolver problemas conectados com situações reais. Essa relação deve ser usada para orientar as escolhas curriculares que fazemos, considerando a seleção dos conteúdos, habilidades e estratégias didáticas.
Isso significa que, ao desenvolvermos um trabalho pedagógico coerente com as aprendizagens previstas na BNCC ao longo de todo o ensino básico, preparamos nossos estudantes para o Enem de forma contínua e orgânica.
Se você quiser ampliar a reflexão sobre esse tema, assista ao videocast “Preparação para o Saeb Matemática no 5º ano: o material didático como aliado”. Nesta conversa, refletimos sobre como o planejamento pedagógico, a mediação docente e o uso qualificado do material didático são fundamentais para o desenvolvimento das habilidades previstas pela BNCC e para a preparação dos estudantes para os desafios do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB).
Conhecer os conteúdos recorrentes nas provas também ajuda a estabelecer prioridades no Ensino Médio. Levantamentos de plataformas educacionais e cursinhos preparatórios apontam a presença majoritária de temas relacionados à Matemática básica, à Geometria e à Estatística. A incidência varia conforme o período e os critérios de classificação utilizados. Quero compartilhar aqui alguns padrões observados nas provas dos últimos anos.
As questões que envolvem Matemática básica exigem conhecimentos sobre números inteiros; frações e números decimais; potenciação e radiciação; transformações entre unidades de medida; razão e proporção; porcentagem; e equações de primeiro e segundo graus.
No eixo de Geometria plana e espacial, o foco está nas propriedades das figuras; no cálculo de perímetros, áreas e volumes; bem como na interpretação de representações geométricas e na resolução de problemas contextualizados.
As questões relacionadas à Estatística apresentam desafios referentes a conceitos básicos (população, amostra, variáveis, frequência); interpretação de gráficos e tabelas; apuração e análise das medidas de tendência central e de dispersão; e noções de probabilidade.
Funções, trigonometria e análise combinatória também integram o rol de conteúdos avaliados.
Conhecer esses padrões resolve parte do nosso desafio. É necessário também analisar as habilidades mobilizadas nas questões e reconhecer que elas envolvem diferentes níveis de aprendizagem, desde identificação de conceitos, padrões e propriedades até a capacidade de resolver situações complexas, elaborando estratégias de resolução, construindo argumentações e avaliando resultados e propostas de intervenção na realidade.
Vamos pensar agora em ações que nos ajudem a descobrir o que os estudantes já sabem fazer, quais conceitos ainda não compreendem e quais dificuldades comprometem a resolução dos problemas. O objetivo é organizar um plano de preparação consistente!
Como identificar as aprendizagens consolidadas e as fragilidades?
O primeiro passo é transformar a resolução de questões em uma oportunidade de diagnóstico. Selecione itens de provas anteriores e proponha situações em que os estudantes resolvam os problemas, registrem as estratégias utilizadas e expliquem seus raciocínios.
Observe não apenas se eles chegaram à resposta correta, mas como interpretam o enunciado, selecionam informações, organizam os procedimentos de resolução e argumentam para justificar o raciocínio.
Para garantir um trabalho focado no acompanhamento das aprendizagens, organize um quadro ou uma planilha para registrar os conhecimentos demonstrados, os erros frequentes e as estratégias utilizadas, considerando tanto cada estudante quanto os resultados da turma por conteúdo e habilidade. Essa estratégia garante um levantamento mais preciso sobre os diferentes níveis de dificuldades: estudantes que precisam sistematizar estratégias de cálculos; outros que fazem uma leitura mais descuidada do texto, esquecendo, por exemplo, de fazer transformações entre unidades de medida; estudantes que não reconhecem as “palavras-chave” que se relacionam com os conceitos matemáticos envolvidos; entre outros.
Perceba que cada um dos exemplos mencionados revela diferentes níveis de dificuldade e exige intervenções específicas. Avaliar, intervir e acompanhar os avanços ajuda a evitar que a preparação para o Enem se transforme em uma sequência de exercícios sem relação com as necessidades reais de aprendizagem.
Como considerar a TRI na preparação para a prova?
A Teoria de Resposta ao Item (TRI) é o modelo utilizado pelo Enem para estimar a proficiência dos participantes com base em suas respostas. A nota não depende apenas da quantidade de acertos; esse modelo considera as características dos itens – grau de dificuldade, probabilidade de acerto ao acaso e capacidade de diferenciar os níveis de proficiência dos participantes – e o padrão de respostas do participante.
Nessa perspectiva, a preparação deve ter como foco a consolidação de conhecimentos básicos e o desenvolvimento da capacidade de resolver questões de diferentes níveis de complexidade.
E, quando pensamos em níveis de complexidade, é necessário considerar que o grau de dificuldade de um item não é determinado pelo volume de texto, pela quantidade de cálculos a realizar ou pela combinação de conceitos. Questões com essas características podem ser mais trabalhosas, mas não necessariamente difíceis. Na TRI, a dificuldade dos itens é estimada estatisticamente de acordo com as respostas dos participantes e as habilidades exigidas.
O professor pode explorar essas diferenças em sala de aula, discutindo com os estudantes o que cada questão exige e quais conhecimentos precisam ser mobilizados. O objetivo é desenvolver autonomia para tomar decisões, administrar o tempo e enfrentar os desafios da prova.
Estratégias para transformar o diagnóstico em aprendizagem
O trabalho com questões já aplicadas no Enem é importante, desde que não se restrinja à proposição de simulados e à correção das alternativas. Algumas ações podem tornar esse trabalho mais significativo:
- Investigue o enunciado: proponha aos estudantes a leitura de textos, gráficos, tabelas e imagens. Peça a eles que identifiquem as informações relevantes, a pergunta central e os conhecimentos matemáticos envolvidos. Ajude-os a identificar “palavras-chave” que estabeleçam relações com os conceitos envolvidos em cada problema.
- Faça o raio X da questão: analise o passo a passo da resolução e os distratores, isto é, as alternativas incorretas. Discuta os possíveis raciocínios que levam a cada resposta e registre os conhecimentos mobilizados.
- Compare estratégias: incentive diferentes caminhos de resolução, explorando o uso de fórmulas, algoritmos e propriedades matemáticas.
- Organize simulados com devolutivas: proponha resoluções individuais com tempo controlado e, depois, analise os resultados com os estudantes. Mais do que contabilizar acertos, ajude-os a reconhecer dificuldades e estabelecer metas de estudo.
- Promova a troca entre pares: organize momentos para compartilhar estratégias e discutir dúvidas. Esta etapa é absolutamente necessária para que cada estudante tome consciência do que já sabe e dos seus desafios pessoais.
Preparar os estudantes para o Enem também significa transformar o ensino da Matemática. Projetos e atividades investigativas oferecem oportunidades para formular conjecturas, testar hipóteses, analisar dados, construir representações e argumentar matematicamente.
Quando o professor reconhece o que os estudantes já dominam, identifica suas fragilidades e planeja intervenções coerentes, a preparação para o exame deixa de ser apenas um treinamento e passa a integrar um processo mais amplo de formação.
Sobre a autora
Rosana de Pieri é pedagoga, licenciada em Matemática e especialista em Neurociência na Escola. Atua com coordenação pedagógica e formação de professores e é assessora pedagógica de Matemática na Editora Órbita.
Referências
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Entenda a sua nota no Enem: guia do participante. Brasília, DF: Inep, 2021. Disponível em: Portal do Inep. Acesso em: 8 out. 2026.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Matrizes de Referência do Enem. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: Portal do Inep. Acesso em: 8 out. 2026.
CARVALHO, Giovanna Cotta; FONSECA, Maria da Conceição Ferreira Reis. A contextualização das questões de Matemática do Enem: uma tentativa de aproximação entre a Matemática escolar e a “realidade” do aluno. In: CONGRESSO NACIONAL DE AVALIAÇÃO EM EDUCAÇÃO, 3., 2014, Bauru. Anais […]. Bauru: [s. n.], 2014. Disponível em: Texto completo. Acesso em: 8 out. 2026.
FERRAZ, Ana Paula do Carmo Marcheti; BELHOT, Renato Vairo. Taxonomia de Bloom: revisão teórica e apresentação das adequações do instrumento para definição de objetivos instrucionais. Gestão & Produção, São Carlos, v. 17, n. 2, p. 421-431, 2010. Disponível em: Texto completo. Acesso em: 9 out. 2026.
SALGADO, Maria Aparecida de Jesus; LOSANO, Ana Letícia. A comunicação estabelecida na aula de Matemática durante a implementação de um cenário para investigação. Série-Estudos, Campo Grande, v. 28, n. 62, p. 325-346, jan./abr. 2023. Disponível em: Texto completo. Acesso em: 13 out. 2026.
RODRIGUES, Cátia; MENEZES, Luís; PONTE, João Pedro da. Práticas de discussão em sala de aula de Matemática: os casos de dois professores. Bolema: Boletim de Educação Matemática, Rio Claro, v. 32, n. 61, p. 398-418, ago. 2018. Disponível em: Texto completo. Acesso em: 9 out. 2026.