Afinal, o que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) cobra de quem ensina Ciências Humanas? Mais do que memorizar informações, a prova mobiliza habilidades: interpretar fontes, comparar perspectivas, relacionar passado e presente. Cabe ao professor identificar os temas que mais se repetem, diagnosticar o que a turma domina e o que representa uma fragilidade, entender como a Teoria de Resposta ao Item (TRI), utilizada no cálculo das notas do exame, orienta a preparação e, com isso, planejar estratégias de sala de aula.
O que a matriz pede e como a TRI pontua?
Em Ciências Humanas e suas Tecnologias, a matriz organiza-se em seis competências de área, desdobradas em 30 habilidades que envolvem, entre outras operações cognitivas, a interpretação de fontes históricas e geográficas, a análise das relações de poder e a compreensão dos processos de transformação social. Segundo Ferro (2017), as competências são as estruturas mentais que articulam saberes e fenômenos, enquanto as habilidades representam a aplicação prática, o “saber fazer”, cujo exercício contínuo aprimora e reorganiza as próprias competências.
De acordo com o Guia de elaboração e revisão de itens (Brasil, 2010), a elaboração da questão exige a construção de um conjunto coeso e articulado, focado em uma única habilidade da Matriz de Referência. Suas três partes (texto-base, enunciado e alternativas) devem dialogar de forma harmônica, delimitando uma única situação-problema e mantendo a consistência do conteúdo. Isso significa que o estudante não é avaliado pela simples lembrança de um fato, mas pela capacidade de mobilizar uma habilidade diante de uma situação concreta, relacionando as informações do texto-base aos conhecimentos mobilizados para identificar a alternativa correta.
Além do formato das questões, importa saber como elas são pontuadas. Diferentemente da contagem simples de acertos, a TRI, que estima a dificuldade, a discriminação e a probabilidade de acerto casual de cada item, considera o padrão de respostas de cada participante (Andrade; Tavares; Valle, 2000): espera-se que quem acerta questões difíceis também acerte as fáceis, e acertos que fogem a essa coerência são interpretados como possivelmente casuais, pesando menos na nota. Como as questões não aparecem em ordem de dificuldade, recomenda-se resolver o caderno em mais de uma passagem: primeiro as que o estudante reconhece como acessíveis, depois as que exigem mais tempo e, por fim, as que parecem mais difíceis. Nenhuma questão deve ficar em branco, já que a ausência de resposta conta como erro, mas o chute não substitui o domínio: um acerto isolado em uma questão difícil, sem sustentação nas fáceis, contribui pouco para a nota.
Por isso, saber quantas questões um estudante acertou diz pouco sobre o que ele sabe. Os Microdados do Enem, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) (Brasil, 2026), indicam a habilidade e a dificuldade de cada item, o que permite montar avaliações diagnósticas com questões de edições anteriores e organizar os resultados por habilidade e por tema, separando dificuldades individuais de lacunas coletivas. Os distratores escolhidos revelam o raciocínio por trás do erro, como o anacronismo ou a leitura literal da fonte. Pela lógica da TRI, as fragilidades em itens fáceis e médios são as que mais comprometem a nota, porque quebram a coerência do padrão de respostas, e por isso devem ser priorizadas no planejamento. Ao valorizar a consistência das respostas, a TRI contribui para estimar o domínio efetivo das habilidades, e não o acúmulo de macetes.
Interdisciplinaridade e prática docente
Com a reestruturação de 2009, a área passou a integrar História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Desde então, exige do estudante problematizar contextos sociais complexos, interpretar linguagens diversas e aplicar esses saberes a problemas do cotidiano. Nas escolas, porém, ainda predomina um modelo conteudista, linear e cronológico, centrado em datas, fatos e nomes isolados, e muitos professores foram formados nessa mesma lógica disciplinar e memorizadora.
Responder a esse desafio não significa reduzir o ensino ao treino para a prova. Em Pedagogia da autonomia, Freire (1996) vincula a formação à emancipação social e à consciência ética e rejeita a ideia do docente como mero aplicador de matrizes elaboradas por especialistas externos. Trabalhar com competências e habilidades significa, antes, desenvolver o pensamento histórico: a leitura crítica de evidências, o reconhecimento de mudanças e continuidades e a reflexão sobre as implicações do passado no presente.
Quais temas se repetem nas provas?
A análise das questões de Ciências Humanas do Enem permite reconhecer temas que atravessam diferentes períodos históricos, espaços geográficos e problemas sociais, conforme mencionados a seguir.
- Cultura e identidades: aparecem em itens sobre povos indígenas, populações afro-brasileiras, patrimônio e disputas de memória.
- Instituições e relações de poder: surgem na formação do Estado, nos regimes autoritários e nos processos de democratização, da pólis grega à Era Vargas, à ditadura civil-militar e à Constituição de 1988.
- Cidadania e movimentos sociais: atravessam a escravidão e o pós-abolição, as lutas por direitos civis e trabalhistas e as reivindicações de grupos historicamente marginalizados.
- Sociedade e espaço: destacam-se a urbanização, a questão agrária e os conflitos pela terra, a globalização e as questões ambientais, muitas vezes apresentadas por meio de mapas, gráficos e tabelas.
- Filosofia e Sociologia: contribuem com debates sobre ética, política e conhecimento, dos pensadores clássicos aos contratualistas e ao Iluminismo, com reflexões sobre desigualdade, indústria cultural e tecnologia.
Esses temas raramente são cobrados como fatos isolados: uma mesma questão costuma articular períodos e disciplinas, e exige relacionar o texto-base a um processo mais amplo. Mapeá-los, portanto, não serve para montar uma lista de conteúdos, mas para organizar o planejamento e, como visto, cruzar temas e habilidades no diagnóstico da turma. Entre eles, o mundo do trabalho é especialmente relevante: presente em diferentes períodos da história brasileira, possibilita investigar as relações de produção, as desigualdades, os processos de exploração e resistência, e a conquista de direitos.
Estratégias para trabalhar em sala de aula
Para trabalhar essas temáticas, uma estratégia possível é conduzir a análise das fontes nos três movimentos apresentados a seguir.
- Questão norteadora: o professor lança uma pergunta que atravesse períodos e disciplinas e registra as hipóteses da turma, que serão retomadas ao final. Em grupos, os estudantes analisam as fontes com um roteiro comum: quem as produziu, com que intenção, quais sujeitos aparecem e quais são silenciados.
- Texto argumentativo: cada estudante responde à questão por escrito, mobilizando evidências das fontes e reconhecendo continuidades e rupturas sem cair no anacronismo. O texto mostra se a habilidade foi desenvolvida e como as hipóteses iniciais mudaram.
- Elaboração de questões: os grupos escrevem itens no formato do exame, com texto-base, enunciado e alternativas, justificando cada distrator. Ao assumir o lugar de quem elabora, o estudante compreende melhor o que o exame exige.
No caso do mundo do trabalho, por exemplo, a questão norteadora pode ser “Quem trabalha, em que condições e com quais direitos?”. A discussão pode articular a pesquisa de Oliveira (2025) e o diário de Jesus (2014), e incorporar dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre ocupação, informalidade e rendimento, por cor ou raça e região. Esse percurso permite analisar os movimentos sociais, a produção e a circulação de riquezas e as lutas por direitos.
Trabalhar por eixos temáticos, diagnosticar fragilidades e compreender a TRI são ações que orientam escolhas didáticas voltadas ao desenvolvimento de interpretação, contextualização e argumentação, capacidades relevantes tanto para o exame quanto para a compreensão crítica da realidade.
Referências
ANDRADE, Dalton F.; TAVARES, Heliton R.; VALLE, Raquel C. Teoria da Resposta ao Item: conceitos e aplicações. São Paulo: Associação Brasileira de Estatística (ABE), 2000.
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Bio: Lays da Cruz Capelozi é coordenadora de fluxos da área de Conteúdos Digitais no Grupo Editorial Multiverso das Letras. Doutora, mestre, bacharel e licenciada em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Uberlândia.