Dia Internacional da Literacia: novos letramentos para a era da IA

Professor ajudando estudante na escola a usar o computador
Celebrada em 8 de setembro, a data ganha novos sentidos diante da expansão da IA e dos desafios de compreender, avaliar e produzir informações em ambientes digitais.

Pode parecer uma temática nova, ou recentemente popularizada, mas já faz 60 anos que a UNESCO celebra o Dia Internacional da Literacia no dia 8 de setembro (UNESCO, [s.d.]). O objetivo é lembrar educadores, profissionais que atuam no desenvolvimento e na promoção de políticas públicas, comunicadores e pessoas de maneira geral sobre a importância do desenvolvimento da literacia – na forma mais ampla do termo – para garantirmos uma sociedade mais pacífica, justa e sustentável. 

Trata-se de um direito humano elementar e fundamental, pois é por meio dele que acessamos tantos outros, como a liberdade de expressão e o real exercício da cidadania. A literacia contempla a capacidade de lermos o mundo e nele atuarmos, levando em conta aspectos como empatia, o respeito pelo outro e pelas diferenças, assim como a busca pela equidade, elementos essenciais para a vida em sociedade.

Mas o que é literacia?

É comum haver alguma confusão conceitual quanto ao uso do termo “literacia”. No site da UNESCO traduzido para a língua portuguesa do Brasil, por exemplo, a efeméride é colocada como Dia Internacional da Alfabetização (UNESCO, 2023). Independentemente da abordagem teórica sobre o uso dos termos “literacia” e “alfabetização”, essa é uma data para lembrar a importância do trabalho e da atuação no desenvolvimento da leitura e da produção de textos – conteúdos de maneira geral, em diferentes formatos – de forma crítica, analítica, responsável e ética.

Particularmente, acreditamos que os exemplos e contextos de aplicação sempre nos ajudam a compreender os significados, em especial, termos com abrangência tão ampla e complexa como “literacia”. Por isso, trazemos o conceito de “literacia digital e midiática”, em alta com a implementação da BNCC Computação (Brasil, 2022). Esse conceito está relacionado ao desenvolvimento e à utilização de competências e habilidades para compreender, analisar, avaliar e criar mídia em diferentes contextos, o que pressupõe o envolvimento com as diferentes plataformas de mídia para autoexpressão e participação cidadã (Spinelli et al., 2023).

A literacia digital e midiática também é tema central do recém-lançado livro Máquinas entre nós: educação midiática para a geração IA (Ochs, 2026). Por meio de uma coletânea de reflexões, Mariana Ochs se debruça sobre um cenário de passividade nos processos de consumo de conteúdos em mídias digitais e a necessidade de “ocuparmos, de forma crítica, ética e criativa, o nosso espaço no ambiente democrático”, resgatando práticas como “a leitura atenta, a escuta ativa, o reconhecimento de nossas emoções e, fundamentalmente, a capacidade de fazer perguntas melhores” (Ochs, 2026, p. 9).

Neste momento em que há disseminação e popularização das plataformas de geração de conteúdos sintéticos, bem como questionamento da verdade em meio a uma enxurrada de deepfakes, a autora fala sobre a urgência de promovermos o letramento digital e midiático – que, aqui, vamos tratar de maneira similar ao que colocamos como “literacia digital e midiática”, pois atuamos com o mesmo enfoque. Da mesma forma, Ochs alerta sobre a naturalização da terceirização da produção de textos e imagens para as máquinas, que nos retornam como resultado produtos algorítmicos, dos quais desconhecemos os vieses e as lógicas de produção.

Literacias/letramentos para tempos de inteligência artificial na escola

O documento Inteligência Artificial na Educação Básica, desenvolvido pelo Ministério da Educação em parceria com a UNESCO para orientar caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas, fala em “equilibrar habilidades técnicas com capacidades exclusivamente humanas” (Brasil, 2026a, p. 17). Paralelamente, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê o desenvolvimento da literacia digital por meio do desenvolvimento de habilidades que possibilitem a identificação e a atuação da população sobre os riscos provocados pela IA, para que possam utilizá-la como forma de acessar direitos e exercer sua cidadania.

Um dos caminhos traçados para alcançar esse objetivo é a criação de uma Olimpíada Brasileira de IA, que não é um fim por si só. Espera-se que, a partir dela, haja “aumento do interesse e compreensão da IA entre jovens e na população geral, resultando em maior procura por cursos relacionados; melhoria na educação científica; e uso mais consciente e responsável da tecnologia” (Brasil, 2025, p. 73). Além disso, algumas outras iniciativas do Plano caminham na direção do desenvolvimento da literacia em IA:

  • Laboratórios Interdisciplinares de Formação de Educadores;
  • Criação de cursos de graduação e disciplinas optativas que tratem do tema;
  • Bolsas para iniciação científica, mestrado e doutorado em IA, incluindo oportunidades no exterior, neste último caso;
  • Plataforma nacional de cursos on-line de qualificação em IA;
  • Cursos presenciais de qualificação via estágio em empresas;
  • Capacitação e requalificação de profissionais de tecnologia em parceria com a iniciativa privada.

Em linha com a proposta do PBIA, no último post do blog pontuamos que o trabalho da escola para educação digital e midiática está “além de ensinar tecnologia, trata-se de preparar estudantes para ler, participar e agir criticamente em uma sociedade cada vez mais mediada pelo digital” (Generali, 2026). E quando refletimos especificamente sobre a literacia para IA, isso fica ainda mais evidente.

Letramentos para o Século XXI

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Fonte: https://x.gd/TpNSOj

A imagem acima, reproduzida do documento “Inteligência Artificial na Educação Básica”, mostra quantos outros letramentos são requeridos para o letramento em IA, além do domínio de competências que podem ser vistas como “desplugadas” (Brasil, 2022), dentre elas, as linguísticas e interpretativas, éticas, estatísticas etc.

O letramento em inteligência artificial refere-se à capacidade de compreender, utilizar e avaliar criticamente sistemas de IA em diferentes contextos educacionais e sociais. Isso inclui conhecer, de forma acessível, como esses sistemas funcionam, quais tipos de IA existem e como utilizam dados e algoritmos para produzir respostas, recomendações ou previsões. Além do uso técnico, o letramento em IA envolve desenvolver uma postura crítica e responsável diante dessas tecnologias. Isso implica reconhecer suas limitações, possíveis vieses e impactos sociais e éticos, permitindo que estudantes, professores e gestores tomem decisões informadas sobre quando e como utilizar ferramentas de IA em processos de aprendizagem, produção de conhecimento e resolução de problemas. (Brasil, 2026a, p. 29)

Desse modo, o letramento em IA demonstra a necessidade de integração dos saberes e letramentos de diferentes áreas do conhecimento:

Letramento computacional

Evidencia a interface entre a Matemática e as Linguagens, requerendo competências e habilidades para a compreensão do funcionamento de sistemas computacionais, o que abrange raciocínio lógico, leitura de dados, representação, processamento e armazenamento de informações, assim como participação crítica e responsável na cultura digital.

Letramento digital e em dados

Também requer competências e habilidades muito vinculadas à Matemática, especialmente no que se refere à análise de dados. Mas, diferentemente do letramento computacional, envolve ainda competências das Ciências Humanas, relacionadas ao conhecimento sócio-histórico e ético, para que se possa compreender e produzir informações em diferentes formatos, levando em conta o ambiente em que foram produzidas e veiculadas.

Aqui, o letramento em dados ocupa um espaço um pouco diferente: tem a ver com o que esses dados representam e a confiabilidade de sua origem, isto é, demanda uma análise crítica sobre as informações, o que também exige competências da área de Linguagens.

Letramento informacional e midiático

Além de competências sócio-históricas e éticas, também requer capacidades linguísticas e interpretativas, o que traz uma intersecção bastante clara das áreas de Linguagens e Ciências Humanas. O letramento informacional e midiático requer conhecimento para a realização de buscas de maneira reflexiva, crítica e responsável, para que se consiga identificar e produzir conteúdos confiáveis, considerando o papel da mídia e das plataformas digitais em nossa sociedade.

Literacia Midiática e em IA no PISA 2029

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), avaliação promovida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para verificar o desempenho de estudantes de 15 anos em leitura, Matemática e Ciências passará a avaliar também a Literacia Midiática e em Inteligência Artificial. O objetivo é entender e comparar, entre diferentes países, o nível de criticidade no consumo, na produção e na participação dos jovens em ambientes digitais, como redes sociais e ferramentas de IA. Mais do que medir as competências, a intenção dessa avaliação é começar a compreender como a literacia midiática e em IA (ou a falta dela) pode oferecer riscos e oportunidades para os jovens em um mundo digital em evolução.

A elaboração da avaliação parte de anos de investigação e da criação de um documento estrutural em versão inicial, o First Draft of the PISA 2029 Media and Artificial Intelligence Literacy (MAIL) Assessment Framework (OCDE, 2026). Trata-se de uma avaliação de um sistema complexo, que tem como aspecto central competências relacionadas à reflexão e ao agir com ética e responsabilidade.

O modelo do PISA 2029 parte do princípio de que a plena literacia midiática e em IA só pode ocorrer em contextos nos quais os jovens tenham condições de acesso e uso a dispositivos e plataformas digitais. E, a partir desse contexto, devem saber analisar, avaliar, participar, colaborar e criar em ferramentas de IA e em ambientes midiáticos, compreendendo a interferência dos autores e suas audiências, o impacto das mensagens e seus significados, além da representatividade de diferentes realidades em ambientes digitais.

Modelo de Competências em Literacia Midiática e em IA

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Fonte: https://x.gd/a3Igk

Literacia em IA: para onde vamos?

Diante desse contexto, é importante considerar pontos essenciais, como: o acesso desigual às tecnologias; a concentração de poder nas empresas de tecnologia, mídia e IA; a importância da governança de dados; a crítica aos modelos algorítmicos; e as desigualdades educacionais, sociais e econômicas que transversalizam o desenvolvimento da literacia em IA pelo mundo.

Precisamos refletir também sobre os limites de mensurar competências críticas, éticas e contextuais por meio de uma avaliação. Por exemplo, como realizar uma análise padronizada sobre a participação cidadã, se ela pode ter configurações tão distintas em diferentes países?

No início de setembro, o Conselho Nacional de Educação (CNE) definiu diretrizes para o uso de IA nas escolas, visando à regulação da utilização pelos estudantes e à garantia da segurança ao longo do processo de aprendizagem. Elas ainda passam por processo de homologação pelo MEC antes da publicação no Diário Oficial da União. Assim que publicadas, as regras passarão a vigorar imediatamente e as adequações ganham prazo de 12 meses para entrar em vigor.

De acordo com as novas orientações, será necessário incluir a IA nos currículos, visando ao desenvolvimento da literacia midiática e em IA. No caso da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, fica proibida a utilização não supervisionada de IA generativa ou conversacional. Sua utilização nas aulas, portanto, deve ser sempre planejada e mediada pelos professores.

Além disso, foi elencado um ranking de riscos quanto ao uso da IA, com recursos e tipos de utilização classificados entre risco baixo, moderado, alto e excessivo. Também, os cursos de licenciatura deverão passar a incluir o uso pedagógico de novas tecnologias, a análise de dados escolares e a avaliação ética das ferramentas (Porvir, 2026). Documentos como o Referencial para desenvolvimento e uso responsáveis de inteligência artificial na educação (Brasil, 2026b) serão aliados de gestores e educadores nesse momento de revisão curricular.

Mesmo celebrado há 60 anos, o Dia Internacional da Literacia nos possibilita refletir como esse é um tema que se renova, complexifica e se amplia com o passar do tempo. Por isso, merece atenção em âmbitos de educação formal e informal para que, juntos, enquanto sociedade, possamos refletir e construir caminhos mais equânimes.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. BNCC Computação: complemento à Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/arquivos/BNCCComputaoCompletodiagramado.pdf. Acesso em: 31 ago. 2026.

BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação; Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. IA para o bem de todos: Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Brasília, DF: MCTI; CGEE, 2025. Disponível em: https://x.gd/mNBh7. Acesso em: 1 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Inteligência Artificial na Educação Básica. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2026a. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/arquivos/ia-basica.pdf. Acesso em: 5 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Referencial de IA na educação. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2026b. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/referencial-de-ia-na-educacao/referencial-ia-na-educacao. Acesso em: 6 set. 2026.

GENERALI, Sabrina. BNCC Computação: por que a educação digital e midiática precisa estar no currículo e na formação de educadores. Blog Viver. São Paulo, 31 ago. 2026. Disponível em: https://vivereditora.com.br/blog/bncc-computacao-por-que-a-educacao-digital-e-midiatica-precisa-estar-no-curriculo-e-na-formacao-de-educadores/. Acesso em: 5 set. 2026.

OCDE. First draft of the PISA 2029 Media and Artificial Intelligence Literacy (MAIL) Assessment Framework. Paris: OECD, 2026. Disponível em: https://x.gd/a3Igk. Acesso em: 5 set. 2026.

OCDE. PISA 2029 Media and Artificial Intelligence Literacy. Paris: OECD, [s. d.]. Disponível em: https://www.oecd.org/en/about/projects/pisa-2029-media-and-artificial-intelligence-literacy.html. Acesso em: 5 set. 2026.

OCHS, Mariana. Máquinas entre nós: educação midiática para a geração IA. São Paulo: Instituto Palavra Aberta, 2026. Disponível em: https://educamidia.org.br/wp-content/uploads/2026/08/OCHS_MaquinasEntreNos_WEB.pdf. Acesso em: 5 set. 2026.

PORVIR. CNE aprova diretrizes para uso de inteligência artificial na escola e universidade. Porvir, São Paulo, 2 set. 2026. Disponível em: https://porvir.org/cne-diretrizes-inteligencia-artificial-escola-universidade/. Acesso em: 6 set. 2026.

SPINELLI, Egle et al. Literacia midiática: desafios para uma cidadania digital inclusiva no contexto da Educação Básica brasileira. Comunicação Midiática, Bauru, v. 18, n. 1, p. 76-97, jan./jun. 2023. Disponível em: https://comunicacaomidiatica.faac.unesp.br/index.php/CM/pt_BR/article/view/572/484. Acesso em: 3 set. 2026.

UNESCO. Dia Internacional da Alfabetização. Brasília: UNESCO, 2023. Disponível em: https://www.unesco.org/pt/articles/dia-internacional-da-alfabetizacao. Acesso em: 5 set. 2026.

UNESCO. International Literacy Day. Paris: UNESCO, 2026. Disponível em: https://www.unesco.org/en/days/literacy. Acesso em: 1 set. 2026.


Sobre a autora

Sabrina Generali

Doutora em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM), mestre em Letras (UFS), pós-graduada em Gestão Integrada da Comunicação Digital (USP), pesquisadora integrante da Cátedra Maria Aparecida Baccega (PPGCOM-ESPM) e diretora de Marketing no grupo Multiverso das Letras.

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