A EJA não se limita àqueles que não tiveram oportunidade de concluir os estudos na idade considerada regular, ela acolhe sujeitos com diferentes histórias de vida, experiências profissionais, conhecimentos, culturas, expectativas e projetos de futuro. Reconhecer essa diversidade é condição fundamental para construir práticas educativas que promovam igualdade de acesso e equidade, considerando as diferentes realidades, necessidades e trajetórias dos estudantes.
Nesse contexto, discutir equidade na EJA implica reconhecer que oferecer as mesmas condições a todos não é suficiente para assegurar o direito à educação. É necessário criar oportunidades para que diferentes sujeitos possam se reconhecer no espaço escolar, ter suas experiências e identidades valorizadas, e encontrar caminhos significativos para a aprendizagem. É justamente nessa perspectiva que a leitura e a literatura assumem um papel fundamental.
A literatura amplia as possibilidades de encontro com diferentes vozes, culturas, tempos, territórios e modos de compreender o mundo. Ao colocar os leitores em contato com personagens, narrativas e experiências diversas, as obras literárias podem contribuir para o reconhecimento e a valorização da pluralidade que constitui a sociedade brasileira. Nesse sentido, a leitura literária ultrapassa a dimensão da decodificação e do desenvolvimento de habilidades linguísticas: ela também pode favorecer a construção de sentidos, o exercício da imaginação, o diálogo com o outro, o reconhecimento de si e a participação social.
Essa perspectiva encontra especial relevância na EJA, considerando a diversidade de seus sujeitos e de suas trajetórias. Muitos estudantes chegam à escola trazendo uma rica experiência de vida, embora tenham tido pouco ou nenhum acesso à cultura escrita e literária. Por isso, aproximá-los dos livros significa também reconhecer que a literatura não pertence a uma determinada faixa etária, escolaridade ou grupo social. Uma obra frequentemente classificada como “infantil”, por exemplo, pode alcançar diferentes leitores e produzir sentidos profundamente significativos para jovens e adultos, especialmente quando possibilita estabelecer relações com suas próprias experiências, memórias, desafios e formas de perceber a realidade.
Apresentamos a conversa entre Marilia Mendes, gerente editorial da Via Lúdica, e Renata Coelho, gerente de Editoria Pedagógica, com a mediação de Carol Ferrari, no episódio “Equidade e o Ensino de Jovens e Adultos”, do canal Multiverso da Leitura no YouTube. Nela, se evidencia justamente essa relação entre equidade, literatura e diversidade. Conforme destacado, o edital do PNLD Equidade EJA compreende a equidade com base em princípios relacionados ao reconhecimento e à valorização da diversidade. Nessa perspectiva, o estímulo à leitura de obras literárias pode contribuir para contemplar diferentes dimensões da população brasileira – étnico-raciais, culturais, linguísticas, históricas, sociais, de gênero e regionais –, ampliando as possibilidades de representação e pertencimento no ambiente escolar.
O PNLD Equidade EJA, portanto, coloca em evidência a importância de assegurar aos estudantes o acesso a obras que dialoguem com a multiplicidade de experiências e identidades presentes na sociedade brasileira. A escolha e a disponibilização dessas obras podem favorecer a constituição de um acervo literário capaz de acolher diferentes perspectivas, promover o respeito às diferenças e criar oportunidades para que os leitores se conheçam e reconheçam outras formas de viver e interpretar o mundo.
Pensar a literatura sob a perspectiva da equidade significa, assim, perguntar quem tem acesso aos livros, quais histórias são contadas, quais sujeitos aparecem representados e de que maneira diferentes leitores podem se reconhecer nessas narrativas. Significa compreender que democratizar a leitura não é apenas disponibilizar livros, mas garantir condições para que todos possam se aproximar da literatura, construir sentidos por meio dela e participar de experiências leitoras significativas.
Na EJA, essa dimensão ganha uma importância ainda maior. A leitura literária pode constituir um espaço de acolhimento e de diálogo entre diferentes gerações, experiências e saberes. Pode recuperar memórias, provocar reflexões sobre a própria trajetória, estimular a imaginação e abrir novas possibilidades de compreensão de si, do outro e da sociedade. Desse modo, a literatura pode atuar como uma potente ferramenta de inclusão, representatividade e transformação social.
Diante dessas reflexões, o vídeo nos convida a pensar a equidade como um princípio das políticas educacionais e como uma perspectiva que deve atravessar as práticas de leitura e de formação de leitores na EJA. Trata-se de reconhecer que garantir o direito à educação também significa garantir o direito à literatura, à imaginação, à representação e ao acesso à diversidade de vozes que compõem a experiência humana.
Dessa maneira, aproximar jovens e adultos da literatura é também afirmar que suas histórias importam, que suas experiências constituem conhecimento e que todos têm o direito de encontrar, nos livros, tanto elementos de sua própria identidade quanto oportunidades de conhecer e compreender outras realidades. Quando pensada do ponto de vista da equidade, a leitura literária torna-se, portanto, uma possibilidade de ampliar horizontes, fortalecer vínculos com a cultura escrita e contribuir para uma educação verdadeiramente inclusiva e democrática.
Venha participar conosco dessa interessante conversa. Acesse: Equidade e o Ensino de Jovens e Adultos – YouTube.