BNCC Computação: por que a educação digital e midiática precisa estar no currículo e na formação de educadores 

african american schoolboy e learning on laptop during computer class in classroom.
Integrar pensamento computacional, mundo digital e cultura digital ao currículo vai além de ensinar tecnologia, trata-se de preparar estudantes para ler, participar e agir criticamente em uma sociedade cada vez mais mediada pelo digital. 

Há mais de uma década, definir em que medida os recursos digitais e as novas tecnologias deveriam ser incorporadas à rotina escolar é um tema que pauta grandes discussões no âmbito educacional. O fechamento das escolas durante a pandemia da covid-19 ampliou esse debate; e, mais recentemente, a popularização dos recursos de inteligência artificial generativa (e o que se tem criado com ela) demonstra que essa é uma discussão do dia a dia do tempo presente. 

Tendo como base esses desafios, a BNCC Computação (Brasil, 2022) foi desenvolvida como um complemento à Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) para promover, desde a Educação Infantil, o desenvolvimento de competências e habilidades que vão apoiar crianças e jovens a atuar no mundo com mais criatividade, criticidade e de maneira mais reflexiva em relação às suas experiências. 

O constante atravessamento das mídias, redes sociais e plataformas em nossas vidas faz com que o olhar para o digital seja essencial para agirmos e intervirmos em um mundo polarizado ideológica e politicamente, repleto de desigualdades e com a necessidade de, cada vez mais, incluir e acolher a diversidade. Por isso, apesar de estar em um documento separado, a BNCC Computação não pode ser vista como um instrumento apartado, componentizado, tratado separadamente, como se as habilidades propostas não fossem requeridas para, por exemplo, ler uma charge, resolver um problema matemático contextualizado ou discutir acerca de fatores relacionados a mudanças climáticas. 

Faz parte das transformações socioculturais levar para a escola – um espaço onde se replicam em escala muito menor algumas dinâmicas da sociedade – estratégias elementares do pensamento computacional, recursos do mundo digital e relações estabelecidas dentro da cultura digital. As habilidades elencadas na BNCC Computação e o esforço que estados e municípios têm realizado para implementá-las em seus currículos trazem exatamente esses três eixos para serem trabalhados junto aos campos de experiência e objetos do conhecimento. 

Sobre os três eixos da BNCC Computação 

A cada ano/série, as habilidades propostas pelo documento vão se complexificando, sempre adequadas à faixa etária. E uma proposta interessante são as sugestões de atividades e intervenções desplugadas. Ou seja, mesmo sem um equipamento eletrônico ou conexão com a internet – especialmente na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, quando esses usos são menos incentivados –, há sugestões práticas para explorar as habilidades relativas aos três eixos que alicerçam esse anexo à base curricular: pensamento computacional, mundo digital e cultura digital. 

Pensamento Computacional 

Alguns verbos recorrentes nas habilidades previstas nesse eixo (reconhecer, comparar, experimentar, criar, simular, organizar/reorganizar, representar, criar, associar, combinar, classificar) se correlacionam com as habilidades vinculadas à resolução de problemas a partir de sequências, ritmo, repetições e padrões. Há ligação com o pensamento crítico e o uso de estratégias para solucionar desafios de maneira estruturada, por vezes demandando a utilização da criatividade. 

Mundo digital 

Nessa outra dimensão, entram os artefatos e instrumentos digitais: aparelhos como computadores e celulares, além de recursos virtuais, disponíveis em aplicativos e sites da internet. Ou seja, esse eixo se propõe a trabalhar o impacto da computação e das tecnologias digitais no mundo contemporâneo. Verbos como reconhecer, identificar, entender, compreender, diferenciar e codificar são recorrentes nas habilidades que tangem o trato de informações. Também se propõe o desenvolvimento de um trabalho com essas mesmas habilidades em interface com o funcionamento de dispositivos e sistemas computacionais, voltadas a aspectos como armazenamento de arquivos, proteção de dados pessoais, processamento, segurança e distribuição nos ambientes digitais. Nesse âmbito, envolvem-se questões relacionadas a responsabilidade, ética, segurança, representação e representatividade no mundo digital. 

Cultura digital 

No eixo de cultura digital, o foco está no impacto das tecnologias digitais na participação consciente e democrática dos sujeitos na sociedade: utilizar recursos disponíveis; reconhecer e entender potenciais, desafios e problemas; consumir, atuar e expressar-se criticamente. Trata-se de um campo mais voltado à atuação e à expressão, que passa também pelo uso de linguagem e conduta ética no cotidiano, estimulando a participação cidadã consciente em ambientes digitais. É aqui também que temáticas relacionadas a empatia, bullying e cyberbullying emergem com mais intensidade. 

BNCC Computação e Educação Midiática 

É interessante perceber como as propostas dos três eixos da BNCC Computação (pensamento computacional, mundo digital e cultura digital) se correlacionam diretamente com habilidades relacionadas à educação midiática, há anos difundida por instituições de Ensino Superior e organizações do terceiro setor, mas que nem sempre alcançam as salas de aula da Educação Básica. 

O EducaMídia (2025), programa com foco no desenvolvimento de habilidades para participar de forma consciente e crítica dos ambientes informacionais, é um exemplo de iniciativa que vem formando professores multiplicadores e tem disponibilizado recursos para o trabalho com objetivos de aprendizagem alicerçados na competência leitora, escrita e participativa, a partir de habilidades que envolvem a análise, a compreensão, o acesso, a avaliação, a aplicação e a criação de forma responsável nos espaços digitais. 

Habilidades da Educação Midiática (EducaMídia) 

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Disponível em: https://educamidia.org.br/habilidades. 

Letramentos para o século XXI 

Charles Fadel, educador e fundador do Center for Curriculum Redesign1 (Center for Curriculum Redesign, 2025), apresenta uma reflexão importante, que nos leva a pensar sobre como costumávamos contemplar as aprendizagens e o conhecimento; e, agora, como se faz necessário complementar essa perspectiva mais tradicional: 

O conhecimento tradicional, baseado em fatos e dados, já não é suficiente. Em vez disso, precisamos ensinar habilidades mais complexas e adaptativas, como pensamento crítico, resolução de problemas e compreensão de conceitos mais profundos, como o conhecimento epistêmico2 (Fadel, 2024). 

Com base nessa perspectiva, cabe refletir que o conhecimento tradicional desenvolvido até aqui não é eliminado. Ele é incluído em um modelo educacional mais flexível e passível de adaptação para diferentes realidades socioculturais, econômicas, de infraestrutura etc., e complementado com uma nova camada de habilidades e conhecimentos demandados na atualidade. Ao se ampliar e complexificar o conhecimento, as conexões também se tornam mais evidentes, o que possibilita a integração entre diferentes áreas. 

Apesar de a perspectiva de Fadel estar centrada no trabalho com inteligência artificial na educação, é possível estabelecer uma relação direta com a proposta complementar entre BNCC e BNCC Computação, olhando para os ambientes digitais de maneira mais global. 

Educação digital e midiática presente nas escolas 

A recém-divulgada pesquisa TIC Educação 2025 (Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2026), realizada periodicamente pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) desde 2010, verificou que educação midiática, segurança nas redes e cidadania digital são temas presentes na maior parte das escolas brasileiras. O uso crítico e reflexivo dos recursos digitais voltados à aprendizagem, porém, ainda é desigual. Das escolas que participaram da pesquisa, 65% relatam realizar projetos de educação digital, midiática e de formação para a cidadania digital. Em centros urbanos, isso já ocorre em cerca de 72% das escolas. Já nas escolas rurais, o indicador cai para 52%. 

Um ponto interessante da pesquisa é a revelação de que, na maior parte dos casos, o trabalho com educação digital acontece de forma integrada aos componentes curriculares: 93% dessas escolas contam com conteúdos transversais no currículo. 

Currículo e VAAR 

Dia 31 de agosto de 2026 foi o prazo limite (Brasil, 2026b) estipulado pelo Ministério da Educação para que estados e municípios apresentem seus referenciais curriculares alinhados também à BNCC Computação. Esse é um dos requisitos para o recebimento do Valor Aluno Ano por Resultado (VAAR) do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) pelas redes públicas no exercício de 2027. 

Os currículos precisam trazer evidências claras e estruturadas acerca do desenvolvimento das habilidades e competências relacionadas à computação, nos três eixos. Dessa maneira, as redes devem passar a trabalhar no dia a dia escolar os atravessamentos das tecnologias nas áreas do conhecimento, deixando de ser apenas um recurso de apoio técnico. Trata-se de uma ação importante para promover a equidade na implementação da educação midiática e digital em todo o país. 

Trilha de formação docente: próxima etapa desta jornada 

Desde 2019, a Cátedra Maria Aparecida Baccega, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM, realiza uma pesquisa longitudinal com educadores (Escola Superior de Propaganda e Marketing, 2026) acerca de seu consumo digital e midiático para fins pessoais e profissionais. Quando o levantamento foi iniciado, há sete anos, a formação de professores já era destacada como um ponto de atenção, uma vez que eles não se sentiam seguros para atuar e intervir no processo de aprendizagem dos estudantes. Quase uma década atrás, alguns profissionais buscavam formação por conta própria, mas não era fácil de encontrar cursos e a temática também não era amplamente difundida. 

Atualmente, observa-se grande empenho do terceiro setor – como o caso do Instituto Palavra Aberta, com o já mencionado EducaMídia; e da Unesco, com suas documentações (Unesco Institute for Information Technologies in Education, [s.d.]), parcerias (Brasil, 2026d) e propostas de atuação global em prol do desenvolvimento de literacia midiática e informacional (Unesco, [s.d.]). Alguns centros de pesquisa acadêmica e universidades, como a cátedra citada anteriormente, também vêm desenvolvendo ações e projetos voltados à educação midiática para/no ensino básico. 

É muito importante destacar agora uma atuação mais incisiva do setor público na temática: o MEC dispõe de dezenas de cursos de acesso gratuito na plataforma AVAMEC (Brasil, 2026a), com amplo alcance e visibilidade entre educadores. Também lançou recentemente a Coleção brasileira de educação digital e midiática (Brasil, 2026c), que reúne cursos e materiais para apoiar redes de ensino, gestores e professores. 

Assim, observamos inúmeras iniciativas voltadas à formação de educadores que são dedicadas à educação digital e midiática, bem como espaços que centralizam os recursos disponíveis. O desafio, porém, é a oferta de uma trilha formativa alinhada às propostas curriculares e aos contextos territoriais de cada rede, a fim de garantir uma preparação alinhada às diferentes realidades locais. Essa aparenta ser a próxima etapa da jornada. 

Referências 

BRASIL. Ministério da Educação. AVAMEC: Ambiente Virtual de Aprendizagem do Ministério da Educação. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2026a. Disponível em: https://avamec.mec.gov.br/v2/#/. Acesso em: 31 ago. 2026.  

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://cdn.mec.gov.br/basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 31 ago. 2026.  

BRASIL. Ministério da Educação. BNCC Computação: complemento à Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/arquivos/BNCCComputaoCompletodiagramado.pdf. Acesso em: 31 ago. 2026. 

BRASIL. Ministério da Educação. MEC orienta redes sobre preenchimento do Fundeb VAAR. Brasília, DF, 31 ago. 2026b. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/agosto/mec-orienta-redes-sobre-preenchimento-do-fundeb-vaar. Acesso em: 31 ago. 2026. 

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Coleção de Educação Digital e Midiática. Brasília, DF: Secretaria de Comunicação Social, 2026c. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/educacao-midiatica/colecao. Acesso em: 31 ago. 2026. 

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Mapa Brasileiro da Educação Midiática (MBEM). Brasília, DF: Secretaria de Comunicação Social, 2026d. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/educacao-midiatica/mapa. Acesso em: 31 ago. 2026. 

CENTER FOR CURRICULUM REDESIGN. Center for Curriculum Redesign: Education for the Age of AI. Boston: Center for Curriculum Redesign, 2025. Disponível em: Center for Curriculum Redesign. Acesso em: 31 ago. 2026. 

COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. TIC Educação: pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras. São Paulo: CGI.br, 2026. Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisa/educacao/. Acesso em: 31 ago. 2026. 

ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING. Cátedra Maria Aparecida Baccega. Pesquisas. São Paulo: ESPM, 2026. Disponível em: https://catedrabaccega.espm.edu.br/pesquisas/. Acesso em: 31 ago. 2026. 

FADEL, Charles. The Meaning of Education in the Age of AI: fala proferida no evento de 25 anos da Fundação Telefônica Vivo. In: PROFUTURO OBSERVATORY TEAM. The Meaning of Education in the Age of AI. ProFuturo Observatory, 9 out. 2024. Disponível em: https://profuturo.education/en/observatory/trends/the-meaning-of-education-in-the-age-of-ai/. Acesso em: 31 ago. 2026. 

INSTITUTO PALAVRA ABERTA. EducaMídia. São Paulo: Instituto Palavra Aberta, 2025. Disponível em: https://educamidia.org.br/wp-content/uploads/2025/05/educamidia-mandala-habilidades-2025.pdf. Acesso em: 31 ago. 2026. 

UNESCO. Media and Information Literacy. Paris: UNESCO, [s.d.]. Disponível em: https://www.unesco.org/en/media-information-literacy. Acesso em: 31 ago. 2026. 

UNESCO INSTITUTE FOR INFORMATION TECHNOLOGIES IN EDUCATION. Media and Information Literacy (MIL). Moscow: UNESCO IITE, [s.d.]. Disponível em: https://iite.unesco.org/mil/. Acesso em: 31 ago. 2026. 


Sobre a autora

Sabrina Generali 

Doutora em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM), mestre em Letras (UFS), pós-graduada em Gestão Integrada da Comunicação Digital (USP), pesquisadora integrante da Cátedra Maria Aparecida Baccega (PPGCOM-ESPM) e diretora de Marketing no grupo Multiverso das Letras. 

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