Por Natanna Silva
Um dos principais desafios enfrentados pelos estudantes que se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é transformar sua opinião em um argumento convincente.
Na redação, não basta expressar o que se pensa: é preciso construir argumentos capazes de sustentar um ponto de vista e convencer o leitor. Para isso, o candidato precisa ir além do domínio da escrita: ele deve compreender o tema, analisar diferentes perspectivas e desenvolver um raciocínio coerente e bem fundamentado.
No texto dissertativo-argumentativo, gênero textual exigido, cada ideia deve contribuir para a defesa da tese, o aprofundamento da discussão e a progressão do raciocínio do estudante.
Mas como desenvolver uma argumentação mais consistente e convincente? Confira dez dicas que podem ajudar você, professor, a orientar os estudantes no aprimoramento da escrita e na preparação para a redação do Enem.
1. Dominar a estrutura do gênero textual
Antes de começar a escrever, o estudante precisa compreender a função de cada parte do texto dissertativo-argumentativo. A introdução apresenta o tema e a tese, o desenvolvimento aprofunda os argumentos que sustentam essa tese, enquanto a conclusão retoma a discussão e apresenta uma proposta de intervenção para o problema.
Essa organização não precisa ser rígida, mas deve garantir uma progressão lógica das ideias. Uma estrutura composta de introdução, dois parágrafos de desenvolvimento e conclusão pode ajudar o candidato a organizar e distribuir melhor as informações. O mais importante é que cada parágrafo cumpra sua função e contribua para a defesa da tese.
2. Interpretar atentamente o tema
Para que a redação atenda ao tema, é fundamental que o estudante leia a proposta com atenção e compreenda o que está sendo solicitado.
Oriente-o a identificar as palavras-chave e a observar os recortes temáticos apresentados nos textos motivadores. Durante essa leitura, algumas perguntas podem ajudar: Qual é o problema central? Quem é afetado por ele? Quais aspectos precisam ser discutidos?
Essa análise contribui para delimitar a abordagem, evitar discussões genéricas ou tangenciais e manter o texto alinhado à proposta de redação.
3. Formular uma tese objetiva
A tese corresponde ao posicionamento que o estudante defenderá ao longo da redação. Ela funciona como um guia para a seleção dos argumentos e a organização dos parágrafos de desenvolvimento.
Uma estratégia eficiente é identificar dois aspectos do problema que possam ser explorados separadamente. Ao orientar essa etapa, incentive os estudantes a formularem uma tese específica, diretamente relacionada ao tema e que possa ser sustentada pelos argumentos desenvolvidos ao longo do texto.
4. Desenvolver argumentos bem estruturados
Para convencer o leitor, o estudante precisa explicar por que determinada afirmação faz sentido e como ela se relaciona com o problema.
Uma estratégia é organizar cada parágrafo de desenvolvimento em quatro movimentos: apresentar o argumento, explicar seu significado, fundamentá-lo com uma informação ou um exemplo, e relacioná-lo à tese. Essa sequência ajuda a evitar parágrafos superficiais, compostos de afirmações que não são devidamente justificadas.
Proponha atividades em que os estudantes identifiquem argumentos pouco desenvolvidos e tentem aprofundá-los, acrescentando explicações, exemplos e relações de causa e consequência.
5. Explorar diferentes tipos de argumentação
O uso de diferentes estratégias argumentativas enriquece a redação, amplia a análise do tema e torna a defesa da tese mais consistente. Ao explicar as causas de um problema, apresentar exemplos, recorrer a informações confiáveis ou estabelecer relações entre diferentes contextos, o estudante demonstra capacidade de desenvolver o raciocínio e fundamentar seu ponto de vista.
O importante é selecionar as estratégias mais adequadas à discussão e articulá-las de maneira coerente, garantindo que cada argumento contribua para aprofundar a reflexão e fortalecer a tese defendida.
6. Utilizar o repertório sociocultural
Livros, filmes, fatos históricos, conceitos filosóficos, pesquisas científicas e dados estatísticos podem servir como referências para enriquecer a redação. Quando bem utilizado, o repertório amplia a discussão e demonstra que o estudante consegue relacionar o tema a conhecimentos construídos em diferentes áreas.
Entretanto, não basta memorizar citações ou mencionar referências conhecidas. É preciso compreender seu significado e estabelecer uma relação clara entre elas, o tema e os argumentos apresentados.
Uma estratégia é organizar repertórios por eixos temáticos. Essa organização pode ajudar a ampliar conhecimentos e a mobilizá-los de maneira pertinente, sem depender de citações decoradas.
7. Utilizar conectivos para a progressão das ideias
Os conectivos são fundamentais para estabelecer relações entre frases, períodos e parágrafos. O segredo está em utilizá-los de acordo com o sentido pretendido. O emprego inadequado pode comprometer a lógica do texto, enquanto a repetição excessiva pode tornar a escrita previsível.
Para desenvolver essa habilidade, proponha atividades de revisão nas quais os estudantes analisem o sentido dos conectivos e experimentem outras formas de estabelecer relações, preservando a coerência do texto.
8. Planejar o texto antes de escrever
Dedicar alguns minutos ao planejamento pode evitar dificuldades durante a escrita. Antes de elaborar a versão definitiva, o estudante deve organizar a tese, os argumentos que serão desenvolvidos, as referências que pretende utilizar e os elementos da proposta de intervenção.
Esse planejamento facilita a distribuição das ideias, reduz repetições e permite verificar se os argumentos realmente sustentam a tese, além de ajudar a evitar que a conclusão apresente soluções desconectadas da discussão desenvolvida.
9. Elaborar uma proposta de intervenção viável
A conclusão da redação deve apresentar uma proposta de intervenção relacionada ao problema discutido no texto.
Para construir uma proposta consistente, o estudante pode responder a cinco perguntas orientadoras: O que será feito? Quem será responsável? Como será realizado? Qual resultado se pretende alcançar? Que detalhes podem tornar a proposta mais concreta?
As respostas ajudam a estruturar a intervenção, mas precisam ser articuladas de maneira clara e coerente com a discussão desenvolvida no texto. É importante evitar soluções vagas e priorizar propostas pertinentes, viáveis e respeitosas.
Em sala de aula, uma possibilidade é apresentar diferentes propostas de intervenção para um mesmo problema e pedir aos estudantes que analisem quais são mais adequadas aos argumentos apresentados.
10. Revisar o texto antes de finalizar
Depois de escrever, o estudante precisa reservar um tempo para revisar a redação. Verificar a ortografia, a pontuação, a concordância, a regência, a organização dos parágrafos e o uso dos conectivos faz diferença na qualidade do texto.
A revisão também deve envolver a leitura crítica do próprio texto. Incentive os estudantes a identificarem trechos pouco claros, informações que precisam ser explicadas e argumentos que poderiam ser mais bem fundamentados. Dessa forma, a revisão deixa de ser apenas uma correção gramatical e passa a integrar o processo de aprendizagem da escrita.
Da prática à construção
Ao colocar essas dicas em prática, fica evidente que, com orientação e oportunidades de exercitar a escrita, o estudante pode desenvolver a capacidade de organizar ideias, fundamentar argumentos e defender seu ponto de vista com clareza e consistência.
Por isso, ao preparar os estudantes para o Enem, lembre-se de que prática, técnica e leitura precisam caminhar juntas. Incentive-os a colocarem essas orientações em ação, mostrando que não é necessário dominar todas as habilidades antes de começar a escrever.
Cada experiência de escrita pode se transformar em uma oportunidade de aprendizagem, permitindo que eles reconheçam seus avanços e identifiquem os aspectos que precisam aprimorar.
Afinal, escrever bem não significa apenas saber o que dizer, mas compreender por que defender determinado ponto de vista, como fundamentá-lo e de que maneira contribuir para uma sociedade mais consciente e participativa.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Matriz de Referência Enem. Brasília, DF: Inep, [s. d.]. Disponível em: https://download.inep.gov.br/download/enem/matriz_referencia.pdf. Acesso em: 15 out. 2026.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A redação do Enem 2026: cartilha do participante. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/cartilha_enem_2026.pdf. Acesso em: 15 out. 2026.
Bio
Natanna Silva é pedagoga, licenciada em Letras – Português e Inglês, professora e assessora pedagógica de Língua Portuguesa.