Reta final do Enem: como ajudar o estudante a mapear o que sabe na área de Linguagens 

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O Enem está chegando. Nesta reta final, é importante trabalhar a metacognição com o estudante, conduzindo-o a reflexões como “O que eu sei?” e “Em que ainda tenho dificuldade?”.

Trata-se de reforçar o pensar sobre o pensar. Para isso, é preciso um planejamento didático que o auxilie a desenvolver ainda mais essa habilidade. 

A metacognição é entendida como a capacidade de planejar esforços cognitivos, identificar erros, revisar estratégias e aceitar ou rejeitar conclusões (Proust, 2025). 

Primeira etapa: como iniciar esse processo? 

Usar o resultado de exercícios, provas anteriores e simulados ajuda a definir prioridades de estudo e a identificar em quais conteúdos o estudante tem mais chances de acerto. 

Segunda etapa: o erro como indicador de caminhos 

O estudante não pode olhar para o erro sem refletir sobre o que está por trás dele. Compreender por que a resposta está equivocada permite direcionar ações mais eficazes. A má interpretação das questões, por exemplo, requer um trabalho específico, que inclui: 

  1. Sublinhar o comando da questão. 
  1. Identificar o gênero, o tema, a ideia central e a finalidade do texto, além da relação entre texto, enunciado e alternativas. 
  1. Questionar-se: “Como sei que entendi a questão?”, “O que realmente está sendo perguntado?”, “Por que esse item é um distrator?”. 
  1. Reler a questão errada e descobrir em que ponto a compreensão se perdeu. 

Essas são apenas algumas estratégias para lidar com erros ligados à má interpretação das questões. Outros equívocos podem ocorrer por falta de repertório conceitual. Nesses casos, recomenda-se revisar o conteúdo com materiais curtos e utilizar estratégias de leitura que permitam resolver as questões por meio do próprio texto. 

Terceira etapa: uso de ferramentas para o desenvolvimento da metacognição 

Boas alternativas para que o estudante se autorregule e faça a prova confiante em suas habilidades e consciente do que precisa desenvolver são o checklist e a autoavaliação orientada por critérios. 

O checklist oferece critérios claros para o estudante comparar o que sabe com o que precisa saber, o que torna a autoavaliação mais concreta e ajuda a direcionar o estudo (Andrade, 2019; Costa et al., 2024). Já a autoavaliação orientada por critérios exige o monitoramento do próprio raciocínio. 

  • Exemplo de checklist 

O educador pode apresentar uma questão do Enem e, após a resolução, propor a reflexão com base em uma lista de verificação: 

☐ Eu sei identificar o objetivo principal do autor sem confundir com exemplos secundários? 

☐ Reconheço a diferença prática entre uma metáfora, uma metonímia e uma ironia no texto? 

☐ Entendo o papel dos conectivos no encadeamento dos argumentos? 

Há outros itens, relacionados à estratégia de realização da prova, que lembram o candidato de ações que podem fazer a diferença: 

  • Leitura do comando 

☐ Li o enunciado antes do texto? Consegui identificar a habilidade cobrada? 

  • Gestão do tempo 

☐ Cronometrei a resolução? 

☐ Resolvi a questão em cerca de 3 minutos? 

  • Leitura crítica 

☐ Baseei minha resposta no que o texto efetivamente diz, e não apenas nos conceitos que eu já conhecia? 

  • Exemplo de autoavaliação orientada por critérios 

O educador pode usar um texto publicitário ou uma charge/imagem com linguagem mista (verbal e não verbal) e pedir ao estudante que responda: 

1. De 1 a 5, quão confiante estou em relação aos conceitos abordados (por exemplo, variação linguística, funções da linguagem, intertextualidade)? 

1 = Não reconheço o conceito. 

2 = Reconheço pouco o conceito. 

3 = Reconheço, mas tenho dúvidas ao aplicá-lo. 

4 = Reconheço, mas confundo alguns itens do conceito. 

5 = Explico e identifico o conceito em textos novos. 

2. Consigo justificar por que as outras quatro alternativas estão erradas, e não apenas por que a alternativa correta está certa? 

Quarta etapa: plano de ação individualizado 

Com base nas autoavaliações, uma alternativa é montar um plano de ação individualizado com três eixos: 

  • Priorização intencional: em vez de tentar revisar todo o currículo de Linguagens, focar microrrevisões teóricas (como funções da linguagem ou figuras de linguagem) apenas nos tópicos em que a autoavaliação indicou insegurança. 
  • Refinamento procedimental: transformar o caderno de erros (registro das questões erradas, da causa do erro e do que será feito de diferente) em hábito semanal, anotando também a justificativa de eliminação dos distratores e a pista textual que confirma o gabarito. 
  • Gestão consciente do tempo: treinar a regra de avançar na prova quando a resolução ultrapassar a média de três minutos, preservando a concentração para os itens em que o acerto é mais seguro. 

Para finalizar 

Com a data da prova muito próxima, é essencial estudar com consciência. Ao fazer boas perguntas sobre o próprio desempenho, o estudante deixa de apenas reagir aos erros e passa a usá-los como guia. O checklist e a autoavaliação orientada por critérios ajudam a tornar esse processo concreto, porque transformam a reflexão em hábito e estratégia. 

Na prova de Linguagens, em que a extensão dos textos e o cansaço físico competem diretamente com a atenção do candidato, a metacognição favorece a leitura estratégica. Quando o educador cria oportunidades intencionais para que ela aconteça, o estudante chega à prova mais seguro quanto ao que sabe, atento ao que ainda precisa ajustar e preparado para tomar decisões durante a resolução das questões. Ao ensiná-lo a pensar sobre o próprio pensamento, o educador ajuda a identificar lacunas conceituais e fortalece a segurança e o protagonismo necessários para enfrentar o exame com clareza e serenidade. 

Que tal aplicar um checklist ainda esta semana, logo após um simulado? 

Sobre a autora 

Priscilla Lucena  

Mestre em Linguística (UFSCar), pesquisadora em Avaliação e Ensino de Línguas, pós-graduada em Metodologias e Práticas para Educação Bi/Multilíngue (Instituto Singularidades) e em Metodologia do Ensino de Língua Inglesa (Faculdade São Luís).  

Referências 

ANDRADE, Heidi L. A critical review of research on student self-assessment. Frontiers in Education, v. 4, art. 87, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.3389/feduc.2019.00087. Acesso em: 20 out. 2026. 

COSTA et al. Self-regulation of curricular learning in self-study time. In: INTERNATIONAL CONFERENCE ON EDUCATION AND NEW LEARNING TECHNOLOGIES, 16., 2024, Palma. EDULEARN24 Proceedings. [S. l.]: IATED Digital Library, 2024. p. 8252-8261. Disponível em: https://library.iated.org/view/COSTA2024SEL. Acesso em: 20 out. 2026. 

PROUST, Joelle. Metacognition. In: Open Encyclopedia of Cognitive Science. Cambridge, MA: MIT Press, 10 fev. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.21428/e2759450.c403b8e7. Acesso em: 20 out. 2026. 

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