Abril é o mês de conscientização do autismo, celebração oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007, com o intuito de desestigmatizar o transtorno e, com isso, promover práticas de inclusão de pessoas autistas. A divulgação de informação embasada e confiável é, sem dúvidas, o primeiro passo no caminho da construção de uma sociedade inclusiva. Contudo, os diversos meios de comunicação e as diferentes vertentes da causa autista têm gerado grande confusão em relação ao entendimento do transtorno.
As estatísticas não enganam: o número de diagnósticos cresce a cada ano. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention, importante órgão de saúde pública norte-americano que monitora a incidência de autismo, no ano de 2022 foi constatada a prevalência de 1 criança autista para cada 33. Essa proporção, que serve como referência mundial, é impressionante, sobretudo se compararmos aos dados do ano 2000, por exemplo, quando a prevalência era de 1 a cada 150.
O aumento no número de diagnósticos pode ser atribuído, entre outros fatores, às mudanças nos critérios de diagnósticos, o que é determinado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). O DSM é uma publicação da Associação Americana de Psiquiatria e serve como guia para definição e diagnóstico de transtornos mentais.
Em 2013, o DSM V apresentou uma mudança substantiva no diagnóstico do autismo. Nesta última versão, diferentes transtornos foram unificados dentro de um grande guarda-chuva: o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A noção de “espectro” não renuncia a critérios fundamentais para o diagnóstico, mas amplia suas manifestações. Ou seja, ainda que todo autista apresente características comuns – como o déficit na comunicação e na interação social, além de padrões restritos de comportamento –, há uma gama extensa de diferentes manifestações do autismo.

A síndrome de Asperger, por exemplo, aparecia no DSM-IV como um transtorno do neurodesenvolvimento específico. Na versão mais atual do guia, ela passou a fazer parte do espectro autista. Tal ampliação no entendimento do autismo reforça a noção da neurodiversidade: apesar de apresentar critérios fundamentais do transtorno, um autista nunca é igual ao outro.
Um segmento da comunidade autista usa a neurodiversidade, termo cunhado pela socióloga Judy Singer na década de 1990, para celebrar as diferenças dos cérebros humanos. Se somos todos únicos, o transtorno autista deixaria de ser entendido como uma deficiência e passaria a ser entendido apenas como uma forma diferente de estar no mundo. Embora a ideia pareça acolhedora e inclusiva, na prática o cenário é diferente. Pessoas autistas necessitam de diferentes níveis de suporte, de acordo com os déficits cognitivos que as acompanham. Enquanto alguns autistas do espectro conseguem se desenvolver com alguma autonomia em aspectos profissionais e sociais, outros mantêm-se à margem da vivência em sociedade, tão expressivos são os déficits que apresentam.
A variação de níveis de autismo dentro de um mesmo espectro é geradora de grande debate. Dentro da própria comunidade autista, a discussão parece afetar sobretudo os autistas nível 1 de suporte, os autistas “leves”. Quando diferenciadas dos autistas severos (nível 3 de suporte), essas pessoas sentem suas dificuldades diminuídas e invalidadas, mas na realidade são o grupo mais afetado por comorbidades como depressão e ansiedade.

Uma das pioneiras nos estudos do autismo, a alemã Uta Frith, professora emérita no Instituto de Neurociência Cognitiva da University College London, vem colocando mais lenha na fogueira desse debate. Segundo a pesquisadora, o espectro autista se tornou tão amplo que está à beira de um colapso, ao mesmo tempo que tem sua utilidade científica reduzida. Na última década, a especialista tem questionado a aversão à identificação de múltiplas categorias. Em fala à Associação para a Saúde Mental de Crianças e Adolescentes, em 2020, Frith afirma: “Precisamos reduzir a categoria diagnóstica excessivamente ampliada do autismo” (2012). Como alternativa, Uta Frith propõe a definição de subgrupos, os quais devem ser definidos no nível da cognição, e não no nível comportamental, como vem acontecendo.
Enquanto o debate segue acirrado, uma verdade se impõe: crianças do espectro autista – de diferentes níveis de suporte, com algumas particularidades específicas e outras comuns ao diagnóstico de TEA – ingressam nas escolas todos os dias. Compreender o autismo passa a ser uma responsabilidade e um desafio também da escola, que engloba não só os professores, mas toda a comunidade escolar. Sem o entendimento do Transtorno do Espectro Autista, é muito difícil dar o passo seguinte, que é o da inclusão.
No curso TEAR – Linhas da inclusão, oferecido pela Viver Editora, procuramos traduzir informações da área da saúde com o objetivo de torná-las palatáveis e acessíveis aos profissionais da Educação. No processo de elaboração do curso, além de buscar informação atualizada e confiável, também escutamos as angústias de professores, bem como de estudantes autistas e seus familiares. Nosso intuito foi o de elaborar um material sério, capaz de auxiliar os professores de maneira prática, sem perder de vista o estudante autista como um indivíduo digno e detentor de direitos.

Como educadora, e sobretudo como alguém que convive com o autismo diariamente na esfera pessoal, sei que não há uma receita mágica para a inclusão bem-sucedida. Contudo, não tenho dúvidas de que essa caminhada comece pela informação. Como vimos, a busca pelo conhecimento é atravessada por debates, vertentes e mudanças constantes, mas isso não deve ser desestimulante. Pelo contrário, isso reforça a necessidade de nos mantermos sempre atualizados, como propõe este mês de conscientização do autismo.
Referências
CENTERS for Disease Control and Prevention. CDC.gov. Disponível em: https://www.cdc.gov/index.html. Acesso em: 24 mar. 2026.
FRITH, Uta. Why We Need Cognitive Explanations of Autism. Quarterly Journal of Experimental Psychology, 2012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22906000/. Acesso em: 24 mar. 2026.
Marina Fiuza é doutora e mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Realizou Estágio Doutoral na University of Michigan – USA. Pós-graduada em Neurociências e Psicologia Aplicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Psicopedagogia Institucional pelas Faculdades ASMEC; graduada em Pedagogia pela Universidade Nove de Julho e em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, atua como editora de literatura na Via Lúdica.