Se a Inteligência Emocional (IE) tivesse que ser encaixada em um segmento geracional, ela seria um jovem adulto Millennial ou Geração Y, a geração que inclui pessoas nascidas aproximadamente entre 1981 e 1996, a geração dos “nativos digitais”, que cresceram com a internet e a tecnologia.
Além do Q.I.
Destacar-se em Física, Matemática e Química; escrever livros fabulosos; pintar quadros ou inventar novos acessórios tecnológicos indicam um grau de inteligência elevada? Muitos respondem que sim e, de fato, há habilidades em destaque em todas as áreas. Mas, durante muito tempo, a sociedade foi levada a acreditar e valorizar apenas a inteligência relacionada à capacidade cognitiva, em especial à capacidade de resolver problemas abstratos ou memorizar e reordenar sequências de dígitos.
O avanço tecnológico, as profundas e rápidas transformações sociais que marcaram o início da globalização e a complexidade das novas formas de se relacionar foram evidenciando que as habilidades cognitivas não poderiam mais garantir o esperado sucesso no desempenho social e profissional. Nesse contexto, compreender e gerenciar emoções tornou-se uma habilidade indispensável, tanto para a vida pessoal quanto para o mercado de trabalho.
Um mundo mais interconectado e digital também se tornou mais complexo, com novas estruturas, novos desafios e novas oportunidades. Os estudos demonstram que saber lidar com as emoções também é essencial para o desenvolvimento humano, facilitando o surgimento e a aceitação da teoria da Inteligência Emocional.
A nova teoria mostrou que, além das habilidades cognitivas, a criatividade, a motivação e as emoções servem como energia que move a pessoa em busca de novas metas, além de serem utilizadas também para criar alternativas na construção de caminhos que visam o alcance dessas metas.

Millennial ou Geração Y
A teoria da IE é considerada recente, pois foi inicialmente fundamentada por Mayer e Salovey em 1990, (López-Machín, 2025). Os autores aprofundaram as pesquisas sobre a capacidade humana de perceber, compreender e regular as próprias emoções; e, além disso, de processar as informações emocionais para usar esse conhecimento e guiar o pensamento e o comportamento respondendo adequadamente às emoções dos outros.
Em pouco tempo, Daniel Goleman (1995) transformou o conceito de IE seguindo cinco competências que ele considerava essenciais:
- Autoconhecimento: capacidade de conhecer a si mesmo e as próprias emoções.
- Autorregulação: identificar a emoção que está sentindo e saber como trabalhá-la na situação presente; também é a habilidade de controlar impulsos emocionais e lidar com o estresse de maneira construtiva.
- Motivação: capacidade de persistir nos próprios objetivos e demonstrar resiliência.
- Empatia: reconhecer e compreender as emoções e as perspectivas de outras pessoas.
- Habilidades sociais: construir conexões sólidas, comunicar-se de forma clara e mediar conflitos e interesses.
Goleman, em todo o seu trabalho sobre a IE, enfatiza o papel da educação no desenvolvimento dessas competências. No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) buscou integrar essas competências no currículo com foco em atividades práticas. Também é possível destacar o Projeto VIVER, solução educacional da Viver Editora para o componente Projeto de Vida, que enfatiza as competências tanto na escola como na família, atendendo a todo o Ensino Básico.
Todos podem desenvolver competências emocionais, pois elas são maleáveis e possíveis de ser aprendidas em qualquer momento da vida por meio da prática, como uma jornada contínua em que as relações são construídas.
Além da Psicologia e da Educação, há outras áreas que demonstram interesse pela IE em virtude de suas possibilidades práticas, tais como: Recursos Humanos; Gestão de Pessoas; Liderança e Gerenciamento; Serviço Social; Vendas; Marketing; entre outras. Essas áreas utilizam a IE para:
- Gerenciar o clima organizacional
- Inspirar as equipes de trabalho
- Gerenciar conflitos de forma eficaz
- Construir relacionamentos saudáveis
- Negociar e resolver problemas
- Melhorar resultados de vendas
- Lidar com situações de estresse, sofrimento e vulnerabilidade
- Manter a calma sob pressão
- Comunicar-se com empatia e eficácia
- Desenvolver habilidades de autoconhecimento e autorregulação, alcançando metas pessoais e profissionais
Avanços em Neurociência
A teoria da IE não elimina sentimentos considerados desagradáveis como tristeza, solidão ou raiva, pois todas as emoções são consideradas respostas naturais do ser humano diante de situações diversas, mesmo que sejam desafiadoras ou dolorosas.
Ao longo do tempo, desde as pesquisas iniciais, a teoria da IE foi questionada várias vezes, principalmente por aqueles que consideram apenas o aspecto cognitivo como sendo a única medida de aptidão humana aceitável. No entanto, as pesquisas relacionadas às emoções e à IE continuam sendo feitas.
Novas descobertas sobre a estrutura do cérebro buscam explicar a interação entre áreas cerebrais que indicam as reações emocionais contraditórias, como medo e raiva, ou emoções que se completam, como paixão e alegria. Os resultados dessas pesquisas sugerem que é possível dominar impulsos destruidores, ou seja, a prática da Regulação Emocional.
A Regulação Emocional é a possibilidade de gerenciar as emoções utilizando o raciocínio associado à IE: perceber, reconhecer e compreender as emoções para ter a capacidade de escolher as estratégias e regular, que significa agir de acordo com as regras, ou controlar, que significa ter domínio das emoções.

Era Digital
Apesar de todas as mudanças tecnológicas desde o início dos anos 1990, e das mudanças geracionais após a Geração Y, chegando às Gerações Z, Alfa e Beta, a necessidade de desenvolver a IE, mesmo sendo Digital, é a mesma.
As gerações estão se comunicando cada vez mais pelos meios virtuais e, apesar de não fazer a leitura imediata da linguagem corporal, ainda há as expressões faciais e modulações da voz, além dos recursos gráficos que são utilizados para transmitir ideias, pensamentos e emoções, exigindo mais ainda o desenvolvimento das habilidades ou competências emocionais.
A IE na era digital não exclui do ser humano a necessidade de desenvolver a capacidade de perceber, compreender e monitorar as próprias emoções, distinguindo-as das emoções dos outros e mostrando a capacidade de usar as informações como um guia para um comportamento equilibrado no mundo on-line.
O desenvolvimento da Inteligência Emocional Digital vai além de reconhecer as próprias emoções. Vai além da alfabetização emocional. São habilidades e aptidões que influenciam a maneira pessoal de viver e interagir em sociedade, mesmo que essa sociedade seja virtual.
Para viver no mundo digital é preciso lembrar que as competências emocionais são habilidades aprendidas, que cada pessoa tem o potencial de se tornar hábil nessas competências e; além disso, cada pessoa tem o compromisso de manter o desenvolvimento humano, como propõe o Blog da Viver Editora: “pautado no autoconhecimento, na motivação, nos relacionamentos, na inclusão, na sustentabilidade e na valorização das potencialidades individuais e coletivas”.
Eneida Torres
Psicóloga Clínica e Educadora
Doutora em Psicologia Educacional
Lattes
Referências
GOLEMAN, D. Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
LÓPEZ-MACHÍN, Christian Ernesto. Inteligencia Emocional: 35 Años de Evolución y Aplicaciones. Revista Internacional de Educación Emocional y Bienestar, v. 5, n. 1, 2025.