Blog Viver: Estamos em um momento de valorização do autoconhecimento, de ter consciência de si. Essa temática tem ocupado uma centralidade nos contextos sociais mais diversos, desde conversas entre amigos até os ambientes escolares. Em sua opinião, qual é a relevância do autoconhecimento?
Professor Braguinha: Numa pequena frase, posso dizer assim: ninguém consegue viver bem sem se conhecer. O movimento de autoconhecimento não é uma moda passageira, mas uma necessidade estruturante da vida.
Parece que, durante muito tempo, as pessoas acabaram se esquecendo disso e foram ensinadas a olhar muito para fora, na busca quase desenfreada por aprovação, sucesso e materialidade. O problema é que, quanto mais nos distanciamos de nós mesmos, mais corremos o risco de perder o centro.
Então, acho que essa busca por autoconhecimento é como voltar para casa, se conectando com o que dói, o que paralisa e também com o que nos move com sentido.
É tão maravilhoso, tão libertador, esse retorno para dentro.
Blog Viver: De que maneira o autoconhecimento contribui para o lembrar-se de viver?
Professor Braguinha: Penso sempre no autoconhecimento como esse bom caminho de volta à vida. Sem ele, a gente apenas toca os dias, mas não se encontra no que vive. Por outro lado, quando me conheço melhor e mais profundamente, começo a reconhecer também a vida que pulsa ao redor. No dizer da bela canção de Almir Sater e Renato Teixeira, “conhecer as manhas e as manhãs…”
Isso é vida com leveza, que passa a ser um resultado natural de quem, de coração, pratica o Memento Vivere, quem lembra conscientemente de viver!

Blog Viver: Além do autoconhecimento, toma centralidade também o debate sobre a ideia de vivermos juntos, a consciência do(s) outro(s) compondo nossa vida e o modo como nos relacionamos com ele(s). Esse assunto é novo?
Professor Braguinha: Não, nada de novo, talvez tão antigo quanto nosso processo de civilização. A ideia de “viver junto” faz parte da história do próprio ser humano. Somos seres gregários e, desde sempre, a vida é uma trama de encontros e desencontros, uma espécie de dança entre o “eu” e o “nós”.
O que é novo, então? Talvez seja a consciência cada vez mais apurada da fragilidade desses vínculos, uma vez que, mesmo estando cercados de gente, muitos se sentem completamente sós. Há um paradoxo na tecnologia que ao mesmo tempo nos aproxima e nos afasta. Aprender a lidar com esse paradoxo é uma arte.
Talvez seja por isso que o debate tenha voltado com tanta força, porque estamos redescobrindo o valor do convívio, da empatia, da escuta verdadeira.

Blog Viver: Qual é a importância do convívio no atual contexto social?
Professor Braguinha: Creio que sua importância básica está em reaprender o que chamo de arte da convivência, porque vivemos em um tempo de opiniões rápidas, mas de afetos tantas vezes superficiais.
Falar sobre “viver juntos” hoje é lembrar que a vida não se sustenta sozinha, e nunca é demais recordar que precisamos do outro para nos ver, nos reconhecer, nos humanizar; e é na dimensão desse encontro que a alma amadurece. Acho isso incrível porque assim escolhemos construir pontes de aproximação ao invés de muros de separação.
Blog Viver: De que maneira nossos relacionamentos podem contribuir para que nos lembremos de viver?
Professor Braguinha: Eles são, de fato, fundamentais para esse processo, porque através deles percebemos o que vive e pulsa em nós ao mesmo tempo que compreendemos o que está adormecido e podemos intencionalmente chamar de volta à vida.
Então, as relações verdadeiras e profundas nos presenteiam com essas possibilidades, pois nos fazem recordar que o sentido da vida não estará jamais nas coisas, mas nos encontros com as pessoas.
O Memento Vivere é, no fundo, um lembrete insistente de que ninguém vive plenamente sozinho, e que a vida se revela de forma bela na conexão entre um coração e outro, e em todo o potencial que existe a partir disso.