De acordo com Yolanda Reyes (2021)1, é sempre muito importante termos em mente que a literatura é construída com base nas experiências humanas e ganha sentido quando mediada com sensibilidade. Uma vez que a mediação literária é um processo corporal, afetivo e compartilhado, à medida que o mediador se torna parte da narrativa, ele inspira os expectadores a ressignificar esses gestos em seu cotidiano. Por isso, nossa leitura de mundo nasce da escuta, das relações e da convivência com o outro.
Ela nasce de conversas que ouvimos quando crianças; nasce de nossa relação com as pessoas que estão aqui e com aquelas que não estão mais; ou seja, nossa leitura nasce de nossa experiência com o mundo. Por isso, é possível perceber o quanto nossa leitura de mundo se espelha na própria literatura e, muitas vezes, nossa própria história de vida já corresponde a uma grande obra literária, de grande venda, para qualquer editora.
Então, pelo fio de nossa memória, resgatamos como realidade da verdadeira leitura a lembrança da voz, as expressões faciais da antiga professora, as mãos em movimento, construindo castelos, e as repetições das palavras, aclamando o sentido da vida. Tudo isso proporciona uma iluminação no entendimento do ser humano sobre o que é mediação.
Quando o pai ou a mãe leem para seu filho, eles estão lendo com a criança, sentindo cada movimento sonoro da palavra, intercalando a respiração em cada pontuação e conduzindo as variações do timbre da voz para melhor encarná-la em seu papel de interpretar. Ler para o filho é também ler com ele. Além disso, é trazer, pela cena construída com o corpo, a recuperação de uma lembrança que, de uma certa maneira, estava adormecida, tanto no mediador quanto no expectador. É muito importante perceber que, assim como o corpo do mediador conduz o processo da mediação, ele também é conduzido pela potência que há na palavra.

Portanto, nessa experiência afetiva que exige a performance de quem lê um texto literário, provavelmente teremos um desabrochar para a formação de dois leitores do texto literário: o pai e o filho. Eu mesma já vi muitas mães desenvolverem suas competências leitoras ao fazer leitura em voz alta para seus filhos. Mães que não tinham afinidade nenhuma com o texto literário, mas bastou um convite da escola para elas prontamente se colocarem no papel de mediadoras. A partir desse acontecimento, pude presenciar clubes de leitura literária se formando entre mães e pais de alunos que antes tinham tempo para ler apenas com seus filhos.
Em outro momento, vivi a experiência de trabalhar um livro de cantigas de roda com meus alunos de sexto ano. Com muito bom humor e criatividade, a autora transformava essas canções conhecidas em paródias engraçadas que aguçam a criatividade das crianças. Uma obra perfeita para cantar em grupo, reinventar letras e brincar de rimar. Os pais entraram nessa brincadeira das paródias e tentaram até organizar um sarau entre família, alunos e escola.
Entretanto, ao tentar mediar essa obra no ambiente escolar, me deparei com a rigidez de pensamentos em um espaço no qual se enxerga o brincar como uma perda de tempo, e não como uma possibilidade de construção de saberes. A leitura – esse território simbólico que atravessa os mistérios entre o dizer e o silenciar, entre o real e o imaginário – não pode ser reduzida a instrumentos de avaliação cartesianos e simplistas.
Foi exatamente pelo trabalho realizado em sala de aula, estendido aos lares de cada aluno, que eu e os pais insistimos no projeto do sarau de paródias. E essa experiência foi extremamente significativa e transformadora no despertar das competências leitora e escritora dos alunos.

Yolanda Reyes (2021)2 afirma que o ensino da literatura só é possível por meio da associação da palavra a um cheiro, a uma sensação, a uma saudade. O reconhecimento dessas zonas cognitivas, experiência tão particular, é o que proporciona a condição de aprender a ler o texto literário. Por isso mesmo, a escola não pode continuar ensinando a ler todos os textos da mesma maneira, pois a necessidade de cada gênero textual precisa ser respeitada pelo mediador, que deve contemplar as especificidades de cada estrutura, estilo, conteúdo e função comunicativa.
Por isso, um professor que seja um eficiente leitor literário consegue achar estratégias para promover o estudo e a mediação de cada tipo de texto, considerando os mais diversos contextos de comunicação. Eu sempre digo que uma pessoa que lê um poema consegue ler tudo, e a escola precisa dar subsídio para a formação de leitores literários, entre eles pais, alunos e professores.
Prof.ª MS Karina Baldo Favaro
Coordenadora de Projetos Literários na Formação de Professores
Editora Via Lúdica
Multiverso da Letras