Bem-estar docente 

Entre a agenda lotada e o indispensável cuidado do essencial.

O professor faz parte daquele grupo de pessoas que precisa constantemente se lembrar de muita coisa. Em sua agenda rotineira, tem que lembrar do preparo das aulas e das correções que se acumulam e parecem jamais ter fim. Entre provas, planos de aula, reuniões de pais, alunos que requerem atenção especial e projetos que a escola promove, nossas demandas são intensas. Ah! Ainda tem os prazos apertados e os infindáveis relatórios… 

Pois é! Na rotina docente, a memória é constantemente solicitada e nossa atenção é permanentemente disputada. 

E, como se tudo isso não bastasse, ao sair da escola a vida não faz intervalo, pois há as contas a pagar, os compromissos da casa, as responsabilidades familiares, as preocupações com a saúde, os relacionamentos que exigem cuidado e os imprevistos que jamais avisam que estão chegando. A vida pessoal também é feita de lembretes urgentes, e quase todos começam com a mesma frase inquietante: não esquecer! 

E é justamente aí que mora o risco; porque, entre tantas coisas que não podem ser esquecidas, o professor, não raramente, pode acabar se esquecendo de si mesmo, de como está, do que sente, do que cansa e do que realmente ainda importa. Nos meus contatos com docentes em diferentes regiões e contextos, percebo claramente que muitos professores adoecem não só pelo excesso de tarefas, mas pela sensação de que precisa sustentar uma imagem o tempo todo. E essa pressão, nem sempre silenciosa, de que é preciso dar conta de tudo pode tornar-se facilmente em um peso insuportável, em que a dificuldade de mostrar fragilidade se acentua e provoca efeitos emocionais nocivos. De fato, são muitas demandas oriundas da ideia de que o professor precisa ser sempre referência. Imagine, então, diante desse quadro, o medo de decepcionar que habita o cotidiano docente.  

É nesse ponto que uma antiga expressão latina se torna bem essencial. Sou apaixonado pelo termo Memento vivere (escrevi um livro com esse título), que significa simplesmente “Lembre-se de viver”. Entre tudo que deve estar presente na memória, lembrar-se de viver deve adquirir sempre uma prioridade incontornável. Essa expressão latina é um contraponto direto a outro termo da Antiguidade, Memento mori, ou “Lembre-se de que você vai morrer”. 

Uau! Duas expressões que são diametralmente opostas, mas complementares entre si. Memento vivere não surge aqui como mais uma exigência para nossa agenda apertadíssima, recheada de tantos lembretes, mas creio que essa dimensão deve ser vista mais como um bom estilo de vida saudável, leve e adequado a qualquer tempo e lugar, e não apenas como um algo a mais que não pode ser esquecido. 

Ora, se viver é o que nos possibilita todas as demais questões da existência, provoco aqui uma pergunta simples e necessária que, em meio a tantas demandas, deveríamos manter em nosso horizonte: 

O que, de fato, é importante lembrar para que eu viva de verdade? 

Talvez lembrar-se de viver seja também permitir-se não sustentar o personagem o tempo todo. O professor, muitas vezes, sente que precisa estar sempre bem, sempre preparado, sempre firme, sempre disponível. Como se não houvesse espaço para dúvidas, cansaços ou fragilidades. Mas sustentar essa imagem continuamente também cansa. E cansa profundamente. 

Lembrar-se de viver pode ser, então, autorizar-se a ser humano diante do outro, sem perder o compromisso, sem perder a responsabilidade e, sobretudo, sem perder a própria verdade interior. Essa autorização íntima se desdobra em diferentes questões, como aceitar que nem toda aula será perfeita e que nem todos vão gostar de você. Também envolve não esquecer que o corpo fala, e que ignorá-lo cobra um preço alto demais. Descansar não é apenas resolver o cansaço acumulado, mas saber de fato que não conseguimos dar conta de tudo e que isso não anula o valor de quem somos. 

Lembrar-se de viver envolve um processo contínuo de autocuidado, em um reconhecimento profundo de que nem tudo na agenda tem o mesmo peso e que o urgente nem sempre é o essencial. Então, podemos dizer que cuidar do nosso bem-estar é, de certa forma, um ato de memória da própria humanidade; memória de que, antes de ser função, o professor é pessoa, e que sua vida não começou no calendário letivo nem termina no fechamento do diário de classe. 

Entre tantas coisas para lembrar, que não se torne esquecido aquilo que sustenta tudo, que é a própria vida que nos foi dada. 

Celebre seu próprio jeito Memento vivere! Especialmente enquanto ensina. 

Antonio Braga Filho é professor, teólogo, pós-graduado em Terapia Familiar Sistêmica e em Didática e Metodologia do Ensino Superior, mestre em Ciências da Religião e autor do livro Memento Vivere: 50 provocações para uma vida melhor, recém-lançado pela Editora Viver.  

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