O campo artístico-literário, previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para os anos iniciais do Ensino Fundamental, propõe experiências que despertem a sensibilidade, a imaginação e o contato com o patrimônio cultural e estético da humanidade. Esse campo é dedicado à fruição de textos literários: lendas, mitos, fábulas, contos, crônicas, cantigas, poemas, poemas visuais, cordéis, quadrinhos, entre outros, com o objetivo de ampliar o repertório das crianças e conectá-las com a diversidade cultural e estética do mundo.
Mais do que ensinar a ler, trabalhar com literatura de qualidade é formar leitores não somente da palavra, mas multissemióticos, ou seja, leitores capazes de reconhecer o jogo que se estabelece entre as linguagens verbal e visual, valorizando a obra como fruto de criação artística. Essa habilidade não é inata, ela se aprende. Sendo assim, é papel da escola desenvolver na criança a habilidade de reconhecer que “os textos literários fazem parte do mundo do imaginário e apresentam uma dimensão lúdica, de encantamento, valorizando-os, em sua diversidade cultural como patrimônio artístico da humanidade” (Brasil, 2017, p. 97).
É justamente nesse espírito que os livros Irene ri, de Marta Lagarta e Guto Lacaz, e Cantigas de Invento, de Jaqueline Conte e Luci Sacoleira, ambas publicadas pela editora Via Lúdica, se destacam como exemplos de obras de qualidade para trabalhar na sala de aula com os objetos de conhecimento: formação do leitor literário; apreciação estética; leitura multissemiótica; formas de composição dos textos poéticos, declamação e performances. Transformar o campo artístico-literário em prática docente é dar vida à BNCC. Com obras como Irene ri e Cantigas de Invento, professores podem despertar o encantamento pela linguagem, o riso e a criatividade que fazem da literatura uma experiência estética e formadora.
Irene ri: versos e imagem em simetria

O livro Irene ri, de Marta Lagarta com ilustrações do premiado designer Guto Lacaz, mergulha no fascinante universo dos palíndromos – palavras e frases que podem ser lidas de trás para a frente e de frente para trás. Com um texto criativo, a autora convida o leitor a se encantar com o jogo linguístico e perceber a simetria não somente em palavras como SOPAPOS ou RADAR, mas também em cada linha do poema, a começar pelo título: IRENE RI. A obsessão pela simetria está também na marcação das páginas:

Em cada virada de página, o leitor se surpreende com um trabalho de linguagem capaz de criar simetria no verso. Experimente ler os versos a seguir da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda: “O BOLO AMA O LOBO”, “A MALA NADA NA LAMA”, “IRENE RI”. Viu? Tudo ficou igual.
A graça está na descoberta de que palavras, frases e estrofes inteiras podem ser espelhos. Mas está também na percepção de que as ilustrações de Guto Lacaz seguem o modus operandi do palíndromo: prezam pela simetria. Observe:

O resultado é uma leitura multissensorial e multissemiótica, em perfeita sintonia com o que a BNCC propõe: o diálogo entre texto e imagem, em uma experiência estética que vai além da decodificação verbal. Além do impacto visual, a obra é um convite à experimentação em sala de aula. As crianças podem inventar seus próprios palíndromos ou criar desenhos simétricos, simulando o que foi lido e observado em Irene ri.
Cantigas de invento: tradição, invenção e ludicidade
Enquanto Irene ri convida o leitor para o espelho das palavras, Cantigas de Invento abre espaço para a experiência com o ritmo e a memória coletiva. Escrito por Jaqueline Conte e ilustrado por Luci Sacoleira, o livro traz um diálogo criativo com o universo das cantigas tradicionais, ressignificando-as com humor, nonsense e imaginação.

A proposta é brincar com o conhecido: o ritmo e a memória das cantigas tradicionais de roda, reinventando versos e criando novas imagens sonoras. O texto e a ilustração caminham juntos, convidando as crianças a ler, cantar e criar suas próprias versões:

Essa experiência resgata o caráter oral da literatura infantil, reforçando a importância da oralidade, da declamação do texto poético e da performance, também destacados na BNCC para os anos iniciais do Ensino Fundamental.
Na sala de aula, o professor pode propor rodas de cantigas, desafios de rimas inventadas ou jogos de recriação poética. Assim, a literatura se torna viva, cantada, dramatizada e reinventada.
Ao trazer para o espaço escolar obras como Irene ri e Cantigas de Invento, o professor amplia o contato dos estudantes com a arte em suas diversas linguagens. As duas obras trabalham com o texto poético, mas exploram caminhos distintos: enquanto uma se fundamenta na experimentação linguística e na brincadeira visual, a outra se ancora no canto, na musicalidade e na tradição popular. Juntas, formam um mosaico da pluralidade literária que a BNCC valoriza como patrimônio artístico da humanidade.
A mediação dessas obras em sala de aula permite que a escola desenvolva o objeto de conhecimento formação do leitor literário, desenvolvendo seres sensíveis e criativos, capazes de participar da brincadeira proposta pela linguagem. E é nesse movimento que a literatura cumpre suas funções essenciais: provocar, encantar e ampliar o olhar sobre o mundo.
Regiane Boainain
Doutora em Literatura e crítica literária pela PUC-SP
Professora de formação
Editora de Literatura infantil e juvenileditora Via Lúdica
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Referências
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
LAGARTA, Marta; LACAZ, Guto. Irene ri. São Paulo: Via Lúdica, 2024.
CONTE, Jaqueline; SACOLEIRA, Luci. Cantigas de Invento. São Paulo: Via Lúdica, 2024.