Dizem que toda dor é única e exclusivamente nossa, e nada dela é passível de ser refletido, pois somente a gente tem a dimensão do quanto ela afeta nossas fragilidades. Entretanto, ao fazer a leitura da obra O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe, refleti muito sobre o poder que há no espelhamento dos silêncios existenciais que deveríamos abraçar em nossa experiência com a solidão. Carlos Drummond de Andrade já afirmava que “há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer”. Mas, para nós, meros mortais, viver sozinho é uma escolha difícil, eu reafirmo como escolha, pois a solidão não se torna única por mero acaso do destino. Até a própria solidão passa por construções edificáveis durante nossa vida. A obra de Mãe retrata exatamente que esse compartilhamento de solidões, em relação às dores ancestrais de nossos processos, pode ser sim uma egrégora eficaz para comungarmos os afetos e os desafetos de sermos humanos.
Entre metáforas e sugestões poéticas, a linguagem dançante do escritor escorrega em tramas diluídas naquilo que poderia ser e não foi, e também em nossa aceitação para convivermos bem com o que se pode ser. A potência que há na corporeidade dessa palavra escrita, da obra, não deve ser substituída pelo gênero cinematográfico. Isso, porque o leitor da obra já entra no filme sustentado pelas metáforas, sem perder o timing das cenas. Mas é preciso ressaltar aqui a fidelidade do filme à poesia da obra, além dos recortes que foram providenciais para trazer luz ao que é essencial. Recomendo!

Por outro lado, a obra devolve ao leitor a poesia que há em nossa percepção no outro, naquilo que não nos pertence, mas acha espaço em algum cantinho de nossas gentilezas. Esse procedimento também desencadeia no leitor um trajeto de imanência dolorido e necessário para nos unir a essa linguagem. Esse trajeto para dentro se faz em coletivo, sendo guiado pelos personagens da trama, como no caso de Isaura:
“Para dentro de si mesma a cair”.
Então, para realizar essa atividade tão íntima e peculiar, os personagens passam por um processo de desumanização, ressignificando o que já foi vivido e o que ainda será, como no caso de Matilde:
“Uma mulher morta disposta a matar também”.
E nessa luta entre solidões que parecem ser tão díspares, mas na verdade não são, os personagens vão conduzindo suas narrativas para um lugar de aceitação e gratidão, ou seja, para um lugar de paz.
“Ser o que se pode é a felicidade. Pensou nisto a Isaura. Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia […] A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.”
E, na ânsia de sentir o amor e de ser amado, o ser humano, em todas as idades, inclusive na infância, procura significado em estar junto, em pertencer uns aos outros, emprestando os olhos de experiências.

Na infância, por exemplo, buscamos a todo momento nos identificar com outras crianças que carregam os mesmos vazios. Um ótimo livro para trabalhar essa temática com os pequenos é Quando chove dentro, de Claudio Gobbetti e Paolo Proietti, publicado pela editora Via Lúdica. Trata-se da história de um menino que se sente sozinho e carrega uma nuvem de chuva que o impede de ver o sol. Esse tipo de mediação de leitura forma um leitor literário que consegue passear com suavidade em textos complexos, principalmente como os de Valter Hugo Mãe. A obra O filho de mil homens, por exemplo, aborda esse estar junto de maneira tão forte que é apresentada a metáfora do personagem Crisóstomo engravidando-se do outro para se reconstruir.
“Depois, imaginou que, de tão levantada, a barriga deixava que o umbigo se abrisse, e que o mar inteiro se punha a voar por sobre a sua cabeça.”
Partindo do pressuposto de que a dor é minha e a solidão é nossa, tudo é uma questão de escolha e de educação para olhar o sensível, a diversidade e o belo que a vida oferece. Entretanto, é preciso aprender a olhar para poder ver a vida assim, como já dizia Cecília Meireles.
E a gente só aprende a olhar desse jeito mais simples com empréstimos que os outros nos oferecem, pois todos nós somos filhos de mil homens e de mil mulheres que passaram pelas nossas vidas nos ensinando o verdadeiro significado de família, o verdadeiro significado de amor.
Profª. MS Karina Baldo Favaro
Coordenadora de Projetos Literários na Formação de Professores
Editora Via Lúdica – Multiverso da Letras
Currículo Lattes
Referências
Mãe, Valter Hugo. O filho de mil homens. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.
Gobbetti, Claudio; Proietti, Paolo. Quando chove dentro. São Paulo: Via Lúdica, 2025.