A incrível jornada dos quadrinhos nacionais
O dia 30 de janeiro não é só mais um quadradinho no seu calendário: esse é o dia em que celebramos os quadrinhos nacionais! E tudo começou lá atrás, em 1869, quando Angelo Agostini lançou As aventuras de Nhô-Quim. Imagine só: há mais de 150 anos, leitores já se divertiam com histórias em sequência que misturavam palavras com imagens e, de quebra, traziam reflexões e críticas sobre a sociedade brasileira.

As aventuras de Nhô-Quim, 1869 – Reprodução
O resto, claro, é história… em quadrinhos! Em 1905, veio o sucesso da revista O Tico-Tico, a primeira dedicada às HQs no Brasil, abrindo espaço para que os quadrinhos nacionais ganhassem identidade própria. Pouco depois, outra publicação ajudou a popularizar o formato (e até o nome): a revista Gibi.
Quase 100 anos depois da estreia de Nhô-Quim, em 1960 surge a Turma da Mônica, nosso maior fenômeno editorial. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali atravessaram gerações, ensinaram crianças a ler e colocaram o Brasil no mapa mundial como um país com uma produção infantil de quadrinhos ativa e constante.
Mas os quadrinhos brasileiros não se resumem à turminha do bairro do Limoeiro ou às crianças. Autores como Henfil, Ziraldo, Laerte e Luiz Gê deram vida a uma produção underground cheia de crítica social e política, mostrando que quadrinho é para todas as idades e sobre todos os temas!
Um dos países pioneiros no desenvolvimento das HQs, o Brasil tem muita história para contar. Hoje, os quadrinhos estão por toda parte: nas mãos dos leitores, nas prateleiras das bibliotecas e, claro, nas salas de aula. Mais do que (só) diversão, eles formam leitores críticos, curiosos e prontos para enxergar o mundo com outros olhos.
Quadrinhos na sala de aula
Os professores já descobriram que os quadrinhos são muito mais do que passatempo: eles são aliados poderosos na sala de aula. Ao usar histórias em quadrinhos, é possível estimular a leitura, a interpretação de texto, de imagens e de leitura sequencial, além de apresentar temas e gêneros dos mais diversos – desde o cotidiano de crianças comuns até adaptações de grandes clássicos da literatura. É uma possibilidade de abertura para novos repertórios e maneiras de enxergar o mundo.
Ler quadrinhos é decifrar imagens, palavras, expressões, traços, cores e até sons representados por onomatopeias. Por isso é importante que os estudantes sejam ensinados a ler HQs desde cedo – assim como aprendem a ler palavras e textos em prosa. E como isso é possível? Com repertório! Os estudantes precisam ter acesso às histórias em quadrinhos, ser apresentados à diversidade dessa linguagem e garantir que as HQs circulem em suas leituras.
O processo de ler HQs (em imagens, principalmente) pode começar já na Educação Infantil: escolha histórias de poucos quadros, destacando os elementos básicos como os balões que indicam fala ou pensamento, os sinais gráficos que mostram ação e as onomatopeias que acompanham a narrativa. Durante essas primeiras leituras, o leitor pode aprender aos poucos sobre a sequência de quadros, o virar da página, o tempo entre um quadro e outro.

Corre, cutia! de Daniel Mallzhen: uma ótima introdução aos quadrinhos para os pequenos!
Com o tempo, esse aprendizado pode se tornar mais complexo, mostrando como os quadrinhos brincam com a própria linguagem: quadros que se rompem, narrativas não lineares, experimentações gráficas que desafiam o leitor a interpretar além do óbvio. Assim, os quadrinhos se revelam como uma linguagem rica e sempre em movimento, capaz de expandir repertórios e estimular a criatividade. O melhor de tudo é que eles acompanham os leitores em todas as fases: da Educação Infantil até a vida adulta.
O uso dos quadrinhos na sala de aula também abre espaço para abordagens interdisciplinares, podendo se relacionar com diferentes áreas do conhecimento e habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Além disso, a grande produção de HQs no Brasil pode incentivar os estudantes a pensar em produzir, eles mesmos, as próprias histórias em quadrinhos – escrevendo ou desenhando – ou buscar conhecer os autores preferidos em feiras e eventos dos mais diversos por todo o país.
Multiverso em quadrinhos
Hoje, editoras como a Via Lúdica ampliam o legado das histórias em quadrinhos brasileiras, oferecendo obras que conversam com diferentes idades e contextos. Dois exemplos que merecem destaque são:
- Corre, cutia!: voltada para a Educação Infantil, essa HQ (re)apresenta a parlenda tradicional e incentiva a imaginação das crianças, um primeiro contato muito divertido com as histórias em quadrinhos como forma de expressão.

- O homem que sabia javanês: adaptação para o Ensino Médio do conto clássico de Lima Barreto. Faz parte da coleção Clássicos ao Quadrado e é uma obra que provoca reflexões sobre ética, poder e linguagem, trazendo um tom crítico, divertido e interdisciplinar.

Celebrar os quadrinhos!
Celebrar o Dia dos Quadrinhos Nacionais é reconhecer que eles fazem parte da identidade cultural brasileira e que seu futuro está nas mãos de quem acredita no poder dessa linguagem: os leitores!
Mas não podemos nos esquecer de celebrar também os muitos profissionais que dão vida a uma obra. Quadrinhos são fruto de um trabalho coletivo: roteiristas, desenhistas, coloristas, diagramadores, revisores, tradutores e editores. Celebrar essa data é também celebrar esses artistas que mantêm viva a chama dos quadrinhos nacionais. Afinal, cada HQ é resultado da soma de peças que, somente juntas, formam o quadro final. Viva os quadrinhos nacionais!
Luara Almeida
Doutora em Literatura e Crítica Literária e editora de quadrinhos na Via Lúdica.
Palavras-chave:
Quadrinhos nacionais; Angelo Agostini; Turma da Mônica; Sala de aula; Gibi; Formação de leitores; Repertório; Interdisciplinaridade.
Referências
BARRETO, Lima; CALIL, Davi (adaptador e ilustrador). O homem que sabia javanês: [história em quadrinhos]. São Paulo: Via Lúdica, 2025. 72 p. ISBN 978-65-6124-249-3.
BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Base Nacional Comum Curricular: versão final homologada. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/educacao-basica/base-nacional-comum-curricular-bncc. Acesso em: 26 jan. 2026.
MALLZHEN, Daniel. Corre, cutia!. São Paulo: Via Lúdica, 2024. 28 p. ISBN 978-65-6124-133-5.