Convite à leitura
Convido você a celebrar o Dia dos Professores com o Blog Viver apreciando este belíssimo texto. Nele, a autora Renata Coelho nos convida a revisitar sua trajetória como docente por meio de uma narrativa sensível, entrelaçada por espaços, memórias, aprendizados e afetos. Com toques líricos, ela revela como a experiência de ensinar transforma, deixando marcas que o tempo não apaga. Mesmo fora da sala de aula, sua vivência como professora continua pulsando – um testemunho de que é possível sair da docência, mas a docência jamais sai de quem ensina com alma.
Neste Dia dos Professores, celebramos não apenas os que estão em sala de aula, mas todos aqueles que, mesmo em novos caminhos, seguem orientados pelo compromisso ético e formativo que caracteriza o ser professor – uma presença que educa, inspira e permanece.
Feliz Dia dos Professores!
Silvana Alves Freitas
Doutora em Educação pela PUC-SP
Diretora-geral da Faculdade Amplia e editora-chefe do Blog Viver

Ao lado esquerdo da grande tela, ficam alguns arranjinhos pessoais. Um vaso de planta que comprei numa feirinha na Liberdade; meu porta-copos de Mário de Andrade; meu porta-copos do Multiverso das Letras. Em cima deles, uma garrafinha verde-musgo e uma caneca rosa de cerâmica em que se lê a palavra “pausa”, escrita à mão, entre dois corações. Há também minha agenda de 2025, escolhida a dedo no início do ano (e que hoje tem o dobro do tamanho de quando nova), e meu caderno exageradamente grande, cheio de arabescos dourados em fundo roxo, para meus dias de estudo. Do lado direito, tenho alguns porta-lápis de Belém, do Pará, assinados por Anísio Artesanato – presentes da Multiverso. Há duas lousinhas penduradas com as tarefas a não serem esquecidas. Atrás da tela, três quadrinhos ilustrados por grandes amigos. Na frente da tela, um espelhinho e um calendário de uma das minhas ilustradoras favoritas – servem bem para disfarçar os fios da tecnologia e para conferir se minha aparência está adequada para uma reunião on-line. Falando em tecnologia, ela também cabe na mesa de trabalho, e se faz presente pela telinha de cinema, pelo piano e pelo ratinho e seu tapete. Dentro das gavetas, papeizinhos, grampeador, creme de mão, documentos importantes, livros editados, escova de dentes, docinhos. Na cadeira, uma antiga almofadinha verde. Ao olhar mais adiante, vejo dois quadros grandes, com ilustrações feitas para que as pessoas olhem devagar, despertando calma. Tive o privilégio de escolher a arte – eles atuam como folhas de guarda em nossas paredes “lúdicas” e “cantantes”. Assim é a minha mesa dentro da editora. Algumas pessoas brincam que “até natureza” cabe; algumas elegeram como a mesa mais linda de todo o escritório. Concordo com as duas versões e confesso que, ao me preparar para encerrar as atividades do dia, me despeço de todos os objetos da mesa, como se fossem colegas de trabalho.
Tenho 22 livros nessa mesma mesa. Eles estão nos dois lados, separados por divisórias de acrílico sem cor. Livros pessoais, livros do setor, livros editados por nossas editoras. Tenho nosso catálogo; tenho livros de literatura, educação, design, história das capas. Uma coleção de Antonio Candido. Mas tem ali, principalmente, os livros que hoje mesmo fiz questão de deixar à vista de quem passar pelo corredor.

São as três obras feitas pelos maiores artistas do livro que já conheci: meus alunos. Um se chama Diário de viagem – crianças como você, escrito, editado e “publicado” em 2019. Nele, registrávamos todos os dias nossas pesquisas sobre brincadeiras ao redor do mundo. O outro se chama Diário de ciências, também de 2019, no qual minha turma do 2º ano registrava as descobertas sobre os seres vivos do jardim da escola. E, por último, o livro As grades, publicado em 2020, no período pós-pandemia. Esse livro-imagem sanfonado, inspirado numa obra de um artista favorito do grupo, contém os desenhos de detalhes de grades de portas, portões, janelas, muros e daqueles ferros em que “por baixo passa um rio”. Atrás de cada desenho, aparece o registro fotográfico da respectiva inspiração. E foi editando esses livros que, quando professora, eu estudava para um dia trabalhar numa editora de literatura para as infâncias. Essas três obras foram cortadas, coladas e bordadas pelas mãozinhas desses artistas. A letra bastão, escrita a lápis e contornada por caneta preta – prática de quem acabara de aprender a escrever e sabe que está produzindo um material que merece zelo –, me lembra a cada dia que os materiais da nossa editora merecem nenhum zelo a menos que esse.
Ao desligar meu computador e dar tchau para minha mesa, eu também me despeço da letrinha dos meus colegas que me ensinaram quase tudo que eu sei sobre edição de livros – a letrinha dos meus alunos. Me despeço da lousa verde, da mesa cheia de sondagens, dos restinhos de borracha empurrados para o chão, das janelas que eu fechava, do avental que eu pendurava. Dessa emoção eu sei que compartilho com meus queridos colegas adultos que trabalham numa editora e seguem lendo as letras das crianças a cada texto que escrevem, editam, ilustram e leem.
Feliz Dia dos Professores!

Renata Coelho
Professora há 15 anos, pesquisadora em Literatura para as infâncias e juventudes
Gerente de Editoria Pedagógica nas editoras Via Lúdica e Cantinela