Só recentemente essa narrativa começou a mudar, ainda que lentamente, graças à resistência e à luta pelo reconhecimento da história e da memória do povo negro, bem como de sua importância na formação do país. A luta do movimento negro, porém, não é recente. Desde os tempos da escravidão, pessoas negras lutaram por dignidade, por suas vidas e por liberdade. Essa resistência se manifestava nas batalhas cotidianas, nos esforços para conquistar a própria alforria e libertar familiares, nas expressões culturais como o jongo, a capoeira, a música, a arte e tantas outras maneiras de afirmar existência, afeto e humanidade.
Aos poucos, histórias de homens e mulheres negros e negras – como Luís Gama, Lima Barreto, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Milton Santos e tantas outras figuras essenciais – vêm ganhando espaço nas páginas dos livros didáticos e na produção literária do nosso país, ajudando a recontar o Brasil por outras vozes. Mesmo Machado de Assis, por muito tempo representado como um homem branco, teve sua identidade negra finalmente reconhecida, demonstrando o quanto o racismo também moldou a forma como vemos e valorizamos nossos escritores. Assim também acontece nas páginas do sistema de ensino Stellare, que, na área de Ciências Humanas, reconhece e celebra a história e a cultura afro-brasileira como parte fundamental da construção da nossa identidade.
O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, nasce de um contínuo e árduo movimento de resistência e afirmação. A data foi escolhida em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo das Américas e símbolo da luta pela liberdade. Criada na década de 1970 pelo movimento negro e oficializada nacionalmente pela Lei 12.519, em 2011, a celebração representa muito mais do que um marco no calendário: é um convite à reflexão sobre o racismo, à valorização da cultura afro-brasileira e ao reconhecimento do protagonismo do povo negro na construção do país.

No entanto, apesar dos avanços e do reconhecimento da importância da história e da cultura afro-brasileira, o Brasil ainda é um país estruturalmente racista, marcado pelo preconceito e pela tentativa constante de apagar ou minimizar os debates raciais. Isso ficou por muito tempo evidente nos espaços escolares e nas páginas dos livros didáticos e literários. Durante décadas, a literatura brasileira refletiu apenas uma parte do país, reproduzindo uma visão restrita e excludente. Em 9 de janeiro de 2003, um novo passo em direção à reparação histórica foi dado com a promulgação da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas. Mais do que uma determinação legal, essa lei é um marco simbólico: reconhece oficialmente que não há como compreender o Brasil sem reconhecer a presença e a contribuição dos povos africanos e afrodescendentes em sua formação. Sua aplicação representa a oportunidade de recontar nossa história sob novas perspectivas, dar visibilidade a personagens antes silenciados e formar gerações capazes de enxergar a diversidade como parte essencial da identidade brasileira.

Nosso papel, na qualidade de editora de livros didáticos, literários e de formação docente que ocupam o espaço escolar, é fundamental para garantir o reconhecimento da história afro-brasileira no Brasil e reforçar o significado do 20 de novembro. Educar é, antes de tudo, um ato de libertação e transformação. Como nos ensinou Paulo Freire, nós nos educamos em comunhão, mediados pelo mundo. E esse mundo diverso e complexo, para muitas crianças, ganha cores e contornos nas páginas dos livros.

Em um país cuja maioria da população é negra, é essencial que as crianças possam se reconhecer nas histórias que leem, nas imagens que veem e nos saberes que aprendem. Ver-se nos livros é afirmar a própria existência; é compreender que o conhecimento também tem cor, ancestralidade e memória. Quando uma menina negra encontra nas páginas de um livro um rosto, um cabelo ou um nome que se parecem com os seus, ela aprende que sua história importa – e que também pode escrever as próximas páginas do Brasil. Por isso, não só nos livros didáticos, mas também nas obras literárias que chegam às salas de aula, é preciso garantir diversidade racial, protagonismo negro e afeto nas narrativas. Esse é o compromisso que move projetos da Via Lúdica, com títulos como A chave, O marceneiro e Lá fora, que ampliam repertórios e imaginários de forma plural e sensível.



E é nesse mesmo compromisso que se insere o resgate de escritores negros e negras que marcaram nossa literatura. Trazer novamente à cena nomes como Lima Barreto – que denunciou o racismo e as desigualdades em suas obras – é dar a eles e elas o espaço que lhes é de direito. A nova publicação da Editora Via Lúdica, O homem que sabia javanês em quadrinhos, celebra esse reencontro com um dos maiores e mais injustiçados escritores da nossa história. Publicar e celebrar Lima Barreto é reafirmar o compromisso do livro e da leitura como instrumentos de reparação histórica e literária.

Neste 20 de novembro, olhemos para os livros como caminhos para a valorização da cultura e da história afro-brasileira. Enquanto editora e sociedade, devemos celebrar escritores, escritoras e protagonistas negros e negras por vezes esquecidos nas prateleiras da história. Que as páginas de nossos selos editoriais sejam espaços de fortalecimento das vozes negras e de escrita de novas narrativas. E que, como grupo cuja missão é promover o livro e a educação brasileira de qualidade, possamos nos alegrar com Lima Barreto em nosso catálogo e enaltecer Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras. Por fim, que sejamos inspirados por Paulo Freire em seu chamado a educar como ato de coragem e amor, e por bell hooks, escritora negra que nos lembra da importância de ensinar a transgredir, romper silêncios e construir um mundo com mais justiça racial.
Joice Oliveira
Ph.D pela Rice University (EUA)
Doutora em História Social pela Unicamp
Especialista em História da Escravidão e Relações Raciais no Brasil
Diretora Pedagógica e de Conteúdos Digitais Multiverso das Letras