O erro como objeto de reflexão docente: caminhos para ressignificar práticas pedagógicas e promover aprendizagens mais significativas.
Dos ditados populares a seguir, com qual você mais se identifica?
“Quem erra e não aprende, erra duas vezes.”
“É errando que se aprende.”
“Os erros pagam-se caro.”
Tais expressões, presentes no cotidiano, revelam diferentes modos de compreender o erro, seja como oportunidade de aprendizagem, seja como uma falha a ser evitada. Da mesma forma, a maneira como você respondeu à pergunta inicial do texto também evidencia sua visão sobre seus próprios erros e os daqueles que o cercam, sejam seus alunos, familiares ou colegas de trabalho.
Fundamentalmente humano, o erro é visto, com frequência, como um obstáculo no processo de ensino-aprendizagem. Para muitos educadores, ele é a consolidação das principais dificuldades de aprendizagem de seus alunos. Contudo, se olharmos sob outro viés, o erro pode revelar caminhos importantes para a construção do conhecimento.
O erro como conhecimento

Para nós, educadores, parece lugar-comum falar sobre o erro, já que, durante todo nosso processo de apropriação teórica de correntes educacionais, somos colocados diante das teorias construídas por Piaget e Vygotsky, que indicam o erro como parte fundamental do processo de aprendizagem. Entretanto, há um distanciamento bastante relevante entre teoria e prática que deve ser levado em consideração. Quantos de nós, educadores, não nos permitimos errar? Qual é seu nível de cobrança com os próprios erros?
Segundo Paulo Freire (1997), “o erro é uma forma provisória de saber”; é por meio dele que o conhecimento é experimentado, colocado em ação pelo sujeito da aprendizagem. Considerar o erro como uma etapa intermediária do processo de ensino-aprendizagem é garantir ao estudante, independentemente da idade, condições reais de demonstrar as hipóteses que está formulando sobre o conteúdo em foco.
Quando um estudante erra, ele não está totalmente indiferente àquele determinado saber, mas sim pensando de um jeito específico, dentro de um processo que não é linear e comum a todos. Errar, então, é parte de um caminho que indica que o sujeito da aprendizagem está organizando suas estruturas cognitivas e precisa de ferramentas ou suporte para avançar.
O erro como oportunidade

Para Luckesi (2011), o erro deve ser compreendido como uma oportunidade para a aprendizagem, e não como um indicador de fracasso. Superar a prática de punir o erro é cada vez mais fundamental, visto que, ao identificar padrões de erro, podemos ajustar intervenções, propor novas e melhores estratégias, repensar metodologias de aprendizagem e apoiar de maneira efetiva nossos alunos.
Ao considerarmos que a aprendizagem acontece na interação entre sujeitos, analisar o que os estudantes ainda demonstram não saber é um importante ponto de partida para repensar nosso planejamento e definir as intervenções que faremos para auxiliar no processo de aprendizagem de cada um. Mudar a lógica da avaliação cria um ambiente mais seguro para processos de tentativa e erro.
Um meio efetivo de superar essa lógica consiste em compreender a recomposição das aprendizagens não apenas como a retomada de conteúdos ainda não consolidados pelos estudantes, mas também como um espaço de planejamento pedagógico voltado à mobilização e à troca de conhecimentos prévios sobre os conteúdos em foco. Essa é uma das premissas dos nossos materiais didáticos no grupo Multiverso das letras, que valorizam a recomposição como um convite aos estudantes para que conscientemente reflitam sobre suas próprias aprendizagens, avaliando o que aprenderam e o que ainda precisam sanar em termos de dúvidas e defasagens.
Sendo assim, enquanto educadores, temos o dever de reconstruir rotas e facilitar caminhos. O erro, longe de representar apenas falhas, se constitui em uma forma de conhecimento em construção, revelando hipóteses, estratégias e modos de pensar dos estudantes, tornando-se, portanto, um elemento fundamental para a mediação pedagógica e para o avanço da aprendizagem.
Referências
FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d’Água, 1997.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2011.
Amanda Alves do Amaral
Coordenadora de assessoria pedagógica do grupo Multiverso das Letras. Educadora, especialista em alfabetização e livro infantil e juvenil, apaixonada por uma educação respeitosa e significativa para todos os sujeitos da aprendizagem.
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